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Robson Fernando
Você, um vegetariano completo convicto, ou que assim se diz, está numa
festa tal. Diante de um aglomerado de doces e salgados com ingredientes
de origem animal – leite e ovos na composição –, não resiste e come
alguns. A desculpa é: “é só essa vez mesmo”. Caro amigo vegetariano que
caiu em tentação, não é porque é apenas uma vez, apenas alguns gramas,
que a ingestão de secreções animais – leia-se leite e/ou ovos, in
natura, em forma de derivado ou como ingrediente de alguma guloseima
composta – se torna isenta de objeção ética. Não é porque o consumo é
mínimo que o leite animal e os ovos se tornam inofensivos para os
animais que os expeliram. Isso vale também para quem se diz “veg” e, com
a equivalente desculpa de que é só por uns instantes, de que é só um
filete ou dois corações de galinha, não resiste à tentação da carne num
evento “especial”.
Essa infeliz atitude acontece até com quem é vegetariano pelos animais,
ironicamente. Pode vir com a desculpa de se “libertar” temporariamente
da “limitação” de opções – já que não há disponibilidade de guloseimas
vegetarianas/veganas na maioria das cidades. É, enquanto um humano se
“liberta” de um cardápio que ele não luta para expandir, mais uma vida
que poderia ter sido poupada de sofrimento e abusos é explorada graças a
alguém que se diz seu defensor.
Qual é a diferença entre a origem do leite que compunha aqueles dois
beijinhos e dois brigadeiros que você comeu e do que vende no
supermercado, supondo que tenham sido da mesma marca? O que faz você
pensar que o pouco de leite que você ingeriu não tem uma origem tão
cruel como o do restante das guloseimas dessa festinha, que dessa vez
não houve o rapto dos bezerros daquela vaca que teve seu leite sugado
pela diabólica pecuária e transformado em docinhos?
Qual a diferença entre o ovo que deu origem àquele pedaço de bolo que
você comeu apresentando a desculpa de que “é só essa festa, depois de
hoje não vai ter mais momento igual” e os demais ovos vindos de uma
enorme fileira de galinhas poedeiras engaioladas e de bicos mutilados?
Entendeu por que eu avisei que não estava certo você abrir exceção na
sua disciplina vegetariana? Pergunto: por que você resolveu vender sua
convicção ética por alguns segundos ou minutos, por alguns pedaços de
derivados animais?
E você que comeu um pedaço de carne só para fazer frente à tentação na
festa de fim de ano? Foi justo ter feito parte, pela primeira vez em um
“mói” de tempo, do regime social de matança de animais para produção de
carne? O que faz aquele pedaço que você não resistiu em comer ser
diferente de todo o restante do corpo do animal que foi morto para
fornecer esse e mais tantos pedacinhos que hoje estão nos espetos dos
mais variados churrascos da cidade? Mesmo que tenha sido um grama de
carne, veio de uma vida que sofreu muito e hoje não existe mais.
Antes de você ousar em quebrar a disciplina que manteve por tanto tempo
sua integridade como vegetariano pelos animais só por um pouquinho de
doces de festa ou carninha de confraternização, pense em tudo aquilo que
fez você aderir ao vegetarianismo ético. Por menor que seja, um pedaço
de derivado animal que você pensa em ingerir nunca é desprezível para a
integridade da ética de se preservar a vida animal da exploração e da
morte pelas mãos humanas. A ferida na moral vai ser infligida, queira
você ou não. A não ser que você desista de cair em tentação e resista
com toda a Razão e compaixão que fez você abraçar a preservação das
vidas sensíveis.
Robson Fernando
Estudante e articulista amador, é dono do blog Consciência
Efervescente
http://conscienciaefervescente.blogspot.com. Entre em contato por
robfbms@hotmail.com
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