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Robson Fernando
A vida do vegetariano é dura na maioria dos recintos de alimentação, todo
ele deve saber disso muito bem. E é mais ainda em bares e praias. Nos
primeiros, os únicos itens do cardápio oferecido que não possuem
qualquer ingrediente de origem animal são as bebidas e, com muita sorte,
a batata-frita – e esta ainda tem que vir sem a possível borrifada
prévia de queijo ralado. Já na praia, salvo o amendoim e as bebidas, é
um motivo de aflição o vaivém de um sem-número de vendedores expondo os
mais variados e infames “alimentos”: cachorros-quentes, camarões,
ostras, caranguejos (às vezes vendidos ainda vivos, ressaltemos), ovos
de codorna, caldinhos contendo carne, espetinhos com carnes e queijos,
arrumadinhos, raspa-raspas com corante de cochonilha, picolés com
ingredientes de leite ou cochonilha... Para o pertencente à “geração
saúde”, a fome nesses lugares é quase certa se não depender da água e do
amendoim que nem sempre aparece ou de comida trazida de casa. Mas
felizmente essa realidade pode estar com os anos contados, uma vez que a
soja está cada vez mais em evidência na gastronomia e seus derivados têm
tudo para fazer muito sucesso a partir da próxima década.
Que o diga a maioria de quem já experimentou a Proteína Texturizada de
Soja (PTS). Vendida a preços muito bons (meio quilo costuma custar menos
de 3 reais em supermercados e lojinhas de produtos naturais), disposta
em variedades como clara, escura, grãos pequenos, médios e ”xadrez” e
aprovada até mesmo por muitos que ainda não admitem uma vida sem carne,
essa promete ser o novo xodó em poucos anos, uma vez que tenha a
divulgação merecida. É a primeira comida que vem à mente da maioria dos
vegetarianos quando lhes é perguntado qual item vegetal serviria melhor
para um petisco ético. Esse gosto, vegetariano ou não, em ascensão
junta-se a vários fatores de contexto para ter grande probabilidade de
entrar no cardápio de bar e praia num futuro próximo:
a) A elevação do número de vegetarianos: é certo que muitos entraram na
onda apenas com propósitos de saúde ou modismo, mas também o é o fato de
que a ética que zela pela vida dos animais e almeja livrá-los do
sofrimento, violência e extermínio industrial infligidos pelo ser humano
está em franco crescimento. Soma-se a ela a preocupação com o meio
ambiente em que a pecuária tão gigantescamente pesa – inclua-se o
exemplo de que cada quilo de carne bovina requer múltiplas vezes mais
água e terreno rural do que a mesma medida de qualquer vegetal
comestível –, o qual também está sendo fundamental nessa ascensão,
vistos os problemas do aquecimento global e do desmatamento. A soja,
entre os produtos agrícolas cultivados em grande escala, é o principal e
melhor substituto da carne nas refeições, fornece uma grande variedade
de derivados e a PTS na maioria de suas formas é quase uma carne –
podendo inclusive tomar a forma de hambúrguer ou lingüiça –, mas com a
peculiaridade, magnamente valorizada pelo vegetariano, de que não tem
sua origem na violência, dor e morte impostas a animais.
b) Preocupações populares crescentes com a saúde, boa forma e
longevidade: muitos nutricionistas associam a soja ao bem-estar, à boa
saúde, à vida longa, e isso está impulsionando muitos ao consumo de
produtos feitos desse cereal. Têm razão esses nutricionistas, mas é
relevante e importante o fato de que muitos deles deixam a observação de
que não é qualquer soja que pode ser deliberadamente consumida, devido à
presença de antinutrientes na soja bruta os quais são removidos nos
processamentos mais bem elaborados de produção dos derivados. Esse
impulso da “geração saúde” a favor da soja também é decisivo para o
aumento do consumo e para a potencial expansão à seção de petiscos e
refeições de bares e restaurantes.
c) A alta dos alimentos: a carne está ganhando um novo inconveniente
para acompanhar a antiética e morbidez de seu consumo: a inflação.
Atualmente muitas carnes outrora baratas já passam dos R$10 por quilo –
felizmente, ressaltemos. Em contrapartida, a soja vinda da agricultura
minifundiária, devido ao gradual crescimento na concorrência entre
empresas produtoras de derivados, não subiu tanto, e até alguns produtos
caíram de preço, como a farofa de soja de alguns estabelecimentos. É
outro fator muito estimulante para a alta do consumo sojívoro. É certo
que produtos como leite de soja, tofu e farofa ainda são caros e
difíceis de ser encontrados, mas é questão de tempo que esses problemas
diminuam o máximo possível com a expansão de seu mercado.
Outra facilidade peculiar desse produto é que a matéria-prima pode ser
convertida nas mais diferentes espécies de alimentos: “carne” refogada,
almôndega, hambúrguer, salsicha, kibe, farofa, queijo (tofu), leite,
iogurte, creme de leite vegetal, componente de macarrões e pães ao lado
do trigo... Só falta ainda o ovo mesmo. Tudo isso, que poucos
imaginariam existir sem a crueldade dos matadouros, granjas e ordenhas
industriais, mostra que a soja é uma quase-panacéia que possibilitará a
existência e sustentação de um mundo vegetariano num futuro em que o mal
chamado pecuária for erradicado. Para bares dos mais variados lugares e
vendedores ambulantes de praias, fazem-se ideais, como num encaixe
perfeito, produtos como espetinho de PTS ou de tofu, coxinha vegana de
PTS, pastel vegano de PTS, arrumadinho com PTS, cachorro-quente de
salsicha vegetal, almôndega... Falta de variedade é uma desculpa
definitivamente inválida para quem ainda desdenha do poder da soja como
o futuro novo integrante do elenco de comidas de praia ou bar. Custo
pode ainda ser um motivo válido hoje, mas consideremos que o mercado
consumidor sojívoro está em incontestável ascensão e os preços devem
cair quanto mais demanda e marcas forem aparecendo. Até o momento,
apenas o preço ainda fora do módico – relevemos a exceção da PTS, cujo
meio quilo, repito, costuma custar menos de 3 reais em lojas
especializadas – e o preconceito da maioria dos onívoros em relação a
esses quitutes vegetais, expressado quando se pré-concebe que “são
ruins” sem a pessoa sequer ter experimentado só pelo caráter ainda
exótico e estranho deles, são fatores que inibem a iniciativa de trazer
as saudáveis delícias sojeiras para os cardápios dos bares e os espetos
de madeira dos vendedores ambulantes de praia.
Pode você pensar nessa pergunta: “tá certo, suponhamos que a soja
conquiste bares e praias. Mas e aí, de onde vai se tirar tantos grãos?
Da Amazônia?” Felizmente tenho uma resposta confortante sobre soluções
agrícolas para a ascensão do consumo humano da tal. Primeiro, lembremos
que a imensa maioria da soja plantada nos criminosamente desmatadores
latifúndios amazônicos e de cerrado é destinada à exportação –
principalmente em forma de forragem para gado e galináceos –, à produção
de biodiesel e ao mercado interno de óleo de cozinha. Apenas algumas
certas gigantes de agronegócio – que, por questão de consumo consciente,
devem ser enfaticamente evitadas até definirem uma política ambiental
aceitável – começaram recentemente a aproveitar uma pequena porção da
colheita dessas plantações para a fabricação de PTS. A quase totalidade
da NOSSA soja (caixa-alta proposital) vem de agricultura familiar ou de
minifúndios que se preocupam em abastecer o mercado interno. E segundo,
muito, mas muito mesmo, das áreas desmatadas ou modificadas pelo homem é
pasto para gados de pecuária extensiva. Uma vez que, algum dia em que a
pecuária for declarada tão ilegal como a escravidão humana e a atividade
de seus pastos e matadouros cessar, o reflorestamento total dos mesmos é
uma utopia incompatível com a realidade sócio-econômica que
provavelmente requererá mais áreas agriculturáveis para a demanda maior
de vegetais, grande parte dos antigos campos pecuários poderia ter o
solo reformado por processos antrópicos de geologia, fertilizado e
utilizado no plantio da soja e de outros produtos agrícolas – e a outra
parte, reflorestada, enfatize-se. Assim haveria PTS, tofu, etc. para
todos que quisessem comê-los nos bares, restaurantes, praias, cantinas e
carrinhos de sanduíche.
É mera questão de tempo e divulgação até que a soja passe a ser a nova
menina-dos-olhos de bares, ambulantes de praia e outros recintos que
ofereçam comida. É também um desafio que aos vegetarianos é imposto: se
quisermos acabar com a rotina vexaminosa de passar fome nesses lugares e
enfim termos neles o que comer, façamos a divulgação da culinária
sojívora. Para os consumidores onívoros de mente mais aberta às questões
de saúde, meio ambiente e direitos dos animais, ressaltemos as várias
vertentes da necessidade de haver essa opção vegetal de refeição nos
recantos de happy-hour. Para gente ignorante e reacionária e para
proprietários de estabelecimentos assim, saibamos conter os impulsos de
protesto, retirar por um momento a armadura de guerreiro pelos animais,
falar a língua deles e ressaltar o lado gustativo dos derivados sojeiros,
a delícia de seu gosto e a boa variedade no paladar proporcionado pelos
produtos vindos do cereal. Façamos como o mestre de relações humanas
Dale Carnegie ensinou: evitemos discussão, comecemos amigavelmente,
sejamos empáticos e falemos nos termos do interesse daqueles que
queremos convencer a experimentar soja. É com esse esforço mais as
propagandas na mídia que os vegetarianos, ovolactistas e outros inimigos
da carne enfim terão o que comer naquela reunião com os velhos amigos e
na praia do fim de semana. Nossos estômagos e os bichos agradecerão.
Robson Fernando
Estudante e articulista amador, é dono do blog Consciência
Efervescente
http://conscienciaefervescente.blogspot.com. Entre em contato por
robfbms@hotmail.com
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