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Robson Fernando
Dia de chuva. Como perdi o guarda-chuva antigo, compraram para mim um
novo, com direito a botão de abrir. Quando vi a etiqueta, a decepção...
“Made in China”. Veio a mim uma amargura, uma empatia de sofrimento, e
uma duradoura reflexão a um assunto que já abordei antes: a “alma” de
exploração e sofrimento brutais que compõe cada objeto importado da
China, cada pedaço de carne servido em restaurantes e supermercados,
cada litro de leite ou vendido nos mais diversos lugares, cada artefato
de couro, cada utensílio doméstico cujos ingredientes foram testados em
animais, cada outro produto que tenha origem na exploração cruel e
negação de direito de tantas vidas sensíveis, enfim, cada bem de consumo
que faz a vida corriqueira de um consumidor comum. É uma situação que
ninguém deveria admitir mas é usufruída a toda hora com todo um sórdido
prazer contido no ato de economizar e curtir paladares agradáveis.
A cada produto em que eu vejo a inscrição “Made in China”, passam em
minha cabeça imagens, flashes ora com chineses trabalhando como
autênticos escravos em fileiras de mesas de produção numa fábrica
qualquer daquele país, ora com pequenos protestos de trabalhadores
exaustos querendo um pouco de descanso sucedidos por muitas pauladas
pela polícia e prisão daqueles que só queriam um mínimo de direitos, ora
com tentativas de reunião associativa, de um número maior de
trabalhadores ávidos por tratamento trabalhista digno ou de membros de
uma etnia minoritária que quer ter sua autonomia cultural reconhecida,
reprimida com parte dos manifestantes espancada a gosto e parte presa ou
assassinada pelo aparelho repressor do governo chinês. A cada saco de
leite ou de iogurte ou bloco de queijo que trazem para casa, vejo em
pensamento dezenas de vacas, depois de terem visto seus bezerrinhos
covardemente roubados e aprisionados para virar vitela e de terem
recebido injeções de hormônio, tendo suas mamas submetidas a uma forte
sucção por monstrengos maquinários de ordenha que lhe causam uma
constante dor. A cada pedaço de carne que comem perto de mim, imagens
ainda piores: matadouros repletos de terror, sangue, gritos, e
demonstrações óbvias de desespero que os humanos ainda insistem em não
compreender como irradiações de uma desgraça abominável que é o
assassinato em série de vidas sencientes inocentes. Sem falar nas cenas
de cadáveres de bichos esfolados pendurados por ganchos que nenhum
onívoro consegue ter a empatia de associar a um humano também esfolado -
imagino na hora o pensamento dessas pessoas: quando é um cadáver humano
trucidado, é coisa para filme de splatter ou caso para pena de morte
quando o assassino é capturado, mas quando são bois ou porcos mortos...
ah, “tudo bem”, é normal, é rotina da indústria pecuária. A cada produto
de marcas grandes que por motivos de bom senso não vou citar que gente
próxima a mim ainda insiste em comprar e usar sem o mínimo de
preocupação ou remorso - e que, oprimido pela falta de dinheiro e de
opções ao mesmo tempo éticas e funcionais no mercado local, eu ainda
tenho que usar com pesar e sentimento de quase-culpa -, vêm as imagens
do vídeo “Não Matarás”: brutais e cruéis testes desses badalados
produtos infligem graves ferimentos e seqüelas em coelhos, ratos e cães
que, aliás, nasceram “predestinados” para o fim de serem brutalizados
pela exploração vinda do lado malignamente anacrônico da ciência e da
indústria.
Depois desses devaneios éticos pelos quais passei, convido você a um
exercício de empatia e reflexão. Você se sentiria feliz se, em algum
momento de sua vida, fosse alçado à burguesia de um país que utiliza
mão-de-obra escrava em suas indústrias e fazendas? Iria se ver bem ao
notar que o dinheiro que sustenta sua vida de quase-socialite e os
produtos badalados e sofisticados que utiliza diariamente vêm da
exploração de um sem-número de trabalhadores escravos que não têm
direito a sequer dormir oito horas?
Não, né? Ok. Agora pense que está vivendo num país em que há duas
classes de produtos. A primeira metade destes é vendida a preço de
banana, todos dizem que vale a pena comprar para economizar bastante no
final, é uma beleza de pechincha. Em compensação, a mão-de-obra por trás
desses objetos é escrava e superexplorada a ponto de que sequer podem
dormir oito horas ou ter direito às três refeições diárias e quem
protesta tem como “opções” a cadeia, o cassetete ou as balas de um
rifle. Já a segunda metade custa o dobro do preço da primeira classe,
mas é notável que os operários que os fabricam são sindicalizados e têm
seus direitos trabalhistas garantidos por lei e respeitados, exceto em
alguns casos que demandam uma ou outra greve. Se você vivesse nesse
país, que metade escolheria?
Eita, é mesmo! Sinto em dizer que você JÁ ESTÁ vivendo nesse país. E a
primeira classe de produtos citada é trazida, adivinhe... da China!
Mudando para os animais, mais um exercício de empatia, agora
interespecífica (entre espécies). O que você acharia de um país que cria
humanos em campos de concentração onde os garotos e rapazes são
confinados e submetidos a intensas aplicações de hormônios do
crescimento para serem mortos aos 16 anos para fornecimento de carne,
pele, gelatina e outros produtos mais e as garotas são submetidas a
injeções de estrógeno e engravidadas com inseminação artificial para,
depois de ter seus bebês roubados e tornados “homovitela”, fornecer
leite materno para agroindústrias? E como você veria, na hipótese de o
Terceiro Reich ter durado até hoje, suas grandes indústrias testando
seus produtos à força em pessoas de etnias condenadas pelo nazismo,
infligindo ferimentos graves, queimaduras e cegueiras? Evidentemente
você vê essas hipóteses como absurdos abomináveis e totalmente
indesejados e dá “graças a Deus” que não sejam reais. Mas, já que essa
brutalidade é com bichos em vez de humanos, você nutre o pensamento de
que “não há o que se preocupar”.
Reunindo tudo, dou continuidade à minha reflexão e me lembro da
“estatística” trazida pelo Professor Girafales, de Chaves: a cada vez
que você respira, morre um chinês. Pensando um pouco, faço uma remixagem:
a cada produto dessa nacionalidade que você compra, morre a esperança de
um trabalhador de lá por um futuro decente. E retomando os animais, viro
o Girafales da vez para te mostrar: você sabia que, a cada vez que você
respira, mil bichos morrem (e com muito sofrimento) para virar carne de
humanos no Brasil?
Com tudo isso, eu retomo o pensamento de que a vida do consumidor comum
tem um bastidor extremamente mais cruel do que ele pensa. Antes de eu
novamente tentar convocar as pessoas para o boicote contra produtos
chineses e o banimento do consumo de carne, leite e outros alimentos
cruéis, penso que deveria haver um legítimo despertar de empatia nelas.
Só assim elas vão perceber que comprar um guarda-chuva importado da
China é tão cruel quanto comprar açúcar de uma fazenda de trabalho
escravo e comer carne e tomar leite remetem a brutalidades que, variando
apenas a espécie, nada devem aos regimes dos campos de concentração de
humanos, e então vão enfim entender aquilo que pregamos persistentemente
e elas preferem ignorar como se estivesse tudo bem. Como se comprar algo
vindo de mão-de-obra semi-escrava e refém de uma ditadura ou extraído
dos cadáveres de seres submetidos a muito sofrimento, assassinados e
brutalizados fossem as coisas mais normais do mundo. Então, com essa
empatia, que sinceramente não sei ainda como vai ser despertada em massa
como tanto desejamos, verão que economizar a todo custo e degustar uma
suculência nem sempre são as coisas mais corretas a se fazer. Ao
contrário, são atos de que, por sua natureza de bastidores, se deveria
fugir como se foge de um tsunami ou de uma veloz corrente de lava.
Robson Fernando
Estudante e articulista amador, é dono do blog Consciência
Efervescente
http://conscienciaefervescente.blogspot.com. Entre em contato por
robfbms@hotmail.com
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