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Robson Fernando
Imaginemos uma vida bem normal de um típico jovem de renda mediana. Ao
acordar, escova os dentes com aquela pasta dental. Toma um café-da-manhã
com leite e hambúrguer, entre outros alimentos. Em seguida, põe aquelas
roupas na moda que não são caras: uma camisa “made in China”, uma calça
importada do sudeste asiático e aqueles sapatos de uma grande
multinacional dessas, única peça que requereu compra a prazo. Vai de
carro à faculdade, gastando um litro de gasolina na ida e um na volta.
No almoço, come aquela picanha, frita com o óleo de uma gigante do
agronegócio, acompanhada pelos cereais e verduras de praxe. À noite,
passa o sabonete, o shampoo, o condicionador, o creme de pentear e o
desodorante de marcas conhecidas. Janta um eggburger no fast-food com os
amigos, novamente munido do sapato da multinacional e agora vestindo um
colete de couro. Enfim, atividades para lá de normais e corriqueiras.
Você se pergunta: “O que tem de mais nisso tudo? Não vejo nada de errado
nessa vida que o rapaz leva”.
Digo, para sua pasmaceira e infelicidade, que essa vidinha simples
sustentada no consumo de produtos considerados normais – dependendo de
seus ingredientes – é mais, muito mais mesmo, exploratória, nociva e
destrutiva do que você pensa. Não falo apenas do que todo mundo fala,
sobre os impactos ambientais (mas falo desta parte também), mas também
de conseqüências igualmente sérias em humanos e em animais não-humanos.
Cada quilo de carne, cada garrafa de óleo de soja de certas marcas, cada
produto importado da China e de outros países violadores de direitos
humanos e trabalhistas, cada litro de gasolina queimado no motor do
carro, tudo isso tem uma origem ou conseqüência que ninguém gostaria de
conhecer. É fato irrefutável que o consumo corriqueiro em que se
sustenta a vida comum de uma maioria esmagadora da população é
sustentado por um alicerce infernal em que são esmagados pelo nosso
“edifício”, vivos ou mortos, milhares de humanos e bichos das mais
diferentes espécies.
Começo pela parte da exploração humana, realidade em todos aqueles
países em que o sindicalismo é proibido e reprimido ou é incipientemente
mal-estruturado. A camisa, a calça e os sapatos do jovem cujo consumo
diário foi descrito, assim como uma miríade de produtos das mais
diferentes espécies, vêm desses lugares. Em grande parte da Ásia, em
especial na China, está em operação um perverso regime de trabalho
imposto aos operários das indústrias. A ânsia em abastecer os mercados
consumidores de todo o mundo nos menores tempo e preço e o máximo de
quantidade possíveis, está passando por cima da dignidade da pessoa
humana e de seu trabalho, com a imposição de carga de trabalho
exorbitante e salários ridiculamente irrisórios. Para você ter uma
idéia, pense que está trabalhando ao menos(!) 60 horas semanais para
receber no fim do mês um salário de cerca de cem reais – ou menos ainda
–, e você não pode reclamar sob pena de ser espancado e preso pela
polícia. Explorados ao extremo, os trabalhadores chineses muito pouco
têm direito à livre-associação ou à formação de sindicatos, e ai de quem
esboçar uma greve. É por isso mesmo que os produtos chineses saem tão em
conta nos países onde são comercializados, porque a baixeza dos salários
compensa o preço muito baixo das mercadorias – sem falar da pesada
exploração ambiental, que ainda vou falar mais adiante –, o que gera
lucros exorbitantes aos empresários que possuem filiais ou matriz na
China e em outros países próximos que lançam mão desse regime
semi-escravo que transgride severamente a concepção de trabalho livre
que os teóricos do capitalismo sempre exaltaram. Se você quer deixar de
ser um cúmplice disso, terá que boicotar produtos estampados com “made
in China” e substituir por produtos nacionais ou de outros países que
respeitam mais seus trabalhadores. Você sozinho não conseguirá fazer
muito em prol da dignidade do operariado chinês, mas será uma peça que,
com o tempo, montará o quebra-cabeça do combate aos abusos trabalhistas.
Em situação ainda pior estão os animais que fornecem a você a carne, o
leite, os ovos, o couro, a base dos seus sabonetes (feita de gordura
animal) e muitos ingredientes de muitos produtos. E dessa vez não é só
no Extremo Oriente, mas no mundo inteiro. Você deve já saber, mas esses
“produtos” vêm de seres sensíveis explorados e mortos. Todos aqueles
animais nasceram não para ter uma vida natural, mas com o propósito
único de servir de matéria-prima ao homem, sendo condenados a uma prisão
perpétua em sítios de confinamento – no caso da pecuária intensiva e das
agroindústrias leiteiras, o aprisionamento é desde a juventude –,
verdadeiros campos de concentração animal. Há sofrimento, gritos e dor
psicológica nos matadouros que fornecem a carne servida nas refeições
humanas, não sendo à toa que a visita ao interior desses lugares
normalmente é proibida. Sem falar nas criações de ovos de galinha, em
que milhares de pintinhos são descartados e queimados(!) por não serem
úteis para a perversa produção de ovos – visto que a maioria dos
pintinhos machos é morta enquanto os pintos fêmeas têm o bico serrado e
são postos para crescer para se tornarem galinhas poedeiras. Outro
aspecto que torna o consumo humano cruelmente sustentado são os testes
de produtos em bichos. A cada dia, muitos produtos, desde os de limpeza
doméstica até os cosméticos e de higiene pessoal (lembra-se do shampoo,
do condicionador, do creme de pentear e do sabonete do jovem do primeiro
parágrafo?), antes de terem seu lançamento ou alteração de ingredientes
autorizado, são perversamente despejados na pele, nos olhos ou em outras
partes corporais de muitos animais, com destaque para cães, ratos,
coelhos e macacos, causando sérias feridas, cegueira e até morte (em
testes de natureza letal como o chamado LD50). E tudo isso que digo, por
estar resumido, é apenas a ponta do iceberg de como o consumo que o
humano comum pratica é sustentado na crueldade e na morte de seres
sencientes. Há muitos outros fatos de exploração e matança animal que
ratificam isso.
E não é só uma parte oprimida da humanidade e da fauna do planeta que
sofrem com as necessidades dispensáveis ou substituíveis do ser humano
médio. O meio ambiente sofre horrores com o efeito “ecocâncer” que ele
desencadeia. Necessidades crescentes das populações humanas, aliadas à
falta de zelo ecológico, consomem florestas inteiras, exaurem rios,
lagos e até mares interiores, levam à extinção centenas de espécies de
fauna, flora e fungos a cada ano. Alguns casos específicos são
emblemáticos na questão, como o caso de gigantes multinacionais de
agronegócio que obtinham (ou ainda obtêm) soja de terras roubadas
(desmatadas) da Amazônia, ora para produzir os óleos de soja ora para
fornecer forragem de gado no Brasil e no exterior, e a própria produção
de carne, cujos efeitos devastadoramente degradantes na natureza vão de
consumo de muita água (milhares de litros para cada mísero quilo de
carne, no caso de bovinos) e exaustão de imensas áreas de pasto à
poluição e emissão de gases-estufa pelos excrementos e flatulências dos
animais explorados. Considere também a gasolina que seu carro queima
todo dia, é uma poluição no mínimo incômoda e perigosa.
Todos devem ter consciência desse aspecto terrível que marca a vida de
muitos que é costumeiramente descrita como normal, precisam aprender que
cada produto consumido pode estar gerando a continuidade de perversos
sistemas de exploração e degradação de vidas. Há soluções plausíveis e
praticáveis, como o veganismo – cessar de todo o consumo de produtos de
origem animal e/ou testados em bichos – e o boicote a produtos vindos de
indústrias ou países adotantes de perversidades trabalhistas. Essas são
algumas das poucas alternativas que garantirão a remoção dos seres
esmagados pelo alicerce do “edifício da vida normal”. Quanto à questão
do homem como um “ecocâncer”, são necessários bom senso, respeito à
natureza e disposição para ajustar seu modo de vida a algo o mais
próximo possível da sustentabilidade através de medidas caseiras como
economia de água, cessar do consumo de carne e moderação no uso de
carros, além de haver necessidade de os debates sobre soluções de gestão
ambiental de indústrias e de manejo sustentável de fontes de
matéria-prima continuarem com força. Dá trabalho, mas é necessário suar
para que deixemos enfim de viver à base de abusos, sofrimentos,
crueldades e mortes desnecessárias e nos tornemos uma espécie de vida
inteligente mais ética e compassiva.
Robson Fernando
Estudante e articulista amador, é dono do blog Consciência
Efervescente
http://conscienciaefervescente.blogspot.com. Entre em contato por
robfbms@hotmail.com
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