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Robson Fernando
Mais uma notícia, ainda que de meses atrás, continua provocando indignação
nas pessoas dotadas de compaixão imparcial para com os animais. Trata-se
do lançamento de um programa nacional de inclusão de carne de peixes nas
merendas das escolas públicas. Uma novidade nada surpreendente quando
vem de um governo amigo de setores de pecuária, pesca e piscicultura, e
totalmente normal, aceitável e bem-vinda para uma sociedade acostumada
ao onivorismo, à sustentação pelo sofrimento e morte multiplicados em
bilhões de bichos mortos anualmente. Mas nada agradável para quem luta
pelo vegetarianismo e pela Libertação Animal e vê mais um retrocesso no
tratamento dos animais por parte do Poder Público, depois da famigerada
lista elaborada pelo IBAMA de espécies animais passíveis de terem sua
escravidão, aprisionamento e mercantilização totalmente legalizados.
Mostrando-se simpático para com os pescadores e aquicultores que
chamavam por um incentivo governamental, o Governo Federal tomou
iniciativa de aumentar a participação do “pescado” na alimentação das
crianças e adolescentes matriculados nas escolas públicas de ensino
básico. Os governantes estão convictos que sua ajuda vai contribuir
positivamente para a renda dos pescadores e aquicultores e a nutrição
dos estudantes. Daí que invoco o que os olhos dos especistas não vêem e
os nossos sim: o lado dos animais foi totalmente desprezado e visto como
fator nulo. Peixes que vemos sofrendo muito depois de raptados - a
melhor expressão que descreve o que eles sofrem ao serem removidos de
seu habitat -, com “direito” a uma asfixia mortal que já fala por si só,
estão sendo tratados como frutas de uma árvore de frutos infinitos que
não sentem nada ao serem desgarradas do grande vegetal e podem ser
colhidas por toda a eternidade. Com o agravante de que não existe “abate
humanitário” na pesca. Aliás, seria improvável e utópico ver governos
como o atual iniciarem o combate à milenar cultura de ignorar o
sofrimento e a crueldade a que os bichos mortos por alimentação são
submetidos antes de morrerem, visto que seguem a obsoleta ética do
zôo-genocídio aceitável para os já dispensáveis fins de alimentação.
Como eu já falei dos olhos especistas que não vêem o sofrimento animal,
reitero que ninguém do governo vê este como sendo o lado negativo desse
programa pró-pescado. É de fazer o amante dos animais cair em tristeza
ver que a autoridade está vendo os bichos agonizarem, debaterem-se,
lutarem em vão pela vida e transparecerem uma vã esperança de voltar à
água e continuar vivendo normalmente com a mesma frieza e desprezo que
os pescadores. Sem falar na antiética de animais serem obrigados a
nascer com o único propósito vital de servir inevitavelmente de alimento
para o homem, que poderia muito bem poupar suas vidas e optar por
alternativas vegetais e livres de sofrimento. Do mesmo jeito que esses
humanos estão desprezando o direito à vida dos bichos aquáticos,
hipotéticos extraterrestres humanóides de tecnologia 2 mil anos à nossa
frente - mas que tivessem o mesmo especismo estúpido e bárbaro que os
terráqueos - poderiam ver a espécie humana da mesma forma... como seres
inferiores, selvagens e passíveis de “cultivo”, matança posterior e
servidão cadavérica.
Tenho uma sugestão que infelizmente duvido que seja levada a sério em
médio prazo pelos onívoros governamentais. Seria a implantação de um
prato vegetal máximo nas merendas. Ainda não haveria (infelizmente) a
abolição total da carne atualmente disponível para não haver quebra-pau
entre os (ainda) poderosos pecuaristas - mais seus lobbies políticos - e
o governo, mas seria aumentada muito a diversidade de vegetais.
Hortaliças que jamais “sonharam” em pertencer à merenda, como
couve-flor, couve-folha, agrião, grão-de-bico, brócolis e sementes de
linhaça, entrariam na onda, e também poderia haver uma opção de
substituir a carne por massa de proteína de soja (conhecida como carne
de soja). Seria uma delícia para a garotada, extremamente nutritivo e
até ajudaria a derrubar o preconceito infantil de achar ruins pratos com
muita variedade vegetal.
Mas é lamentável que a realidade aponte que esse desejo ainda pode
demorar décadas para entrar nas cozinhas das escolas públicas. Porque
comprar peixes mortos é mais barato. Aliás, pagar para raptarem e
matarem por asfixia bichos aquáticos sai mais barato que investir em
diversidade vegetal. É até engraçado que o governo prefira não estimular
a diversificação vegetal-nutricional nem onde tem poder de ação direta -
como as escolas públicas mesmo - mas sim continuar fomentando o
zôo-genocídio de peixes e de gados em atividades de exploração animal
para fins de alimentação já comprovados como dispensáveis.
Eles ignoram a vida dos bichos vítimas da exploração humana, mas nós
não. Precisamos concentrar nossas forças para que o encorajamento de
práticas como pesca e piscicultura seja cessado e seja apresentada cada
vez mais a alternativa da agricultura familiar/minifundiária/de horta. A
campanha pró-pescado nas escolas não chega ainda a ser um retrocesso
significativo na luta da Libertação Animal como a famigerada consulta
pública do livre cárcere liberada pelo IBAMA, já que não chega a
aumentar de forma alarmante a cultura do zoovorismo e da falta de
compaixão para com animais “comestíveis” e apenas a mantém nos níveis
atuais, mas ainda assim deve ser motivo da atenção dos defensores dos
animais até para a propagação, por exemplo, de uma campanha que visasse
o aumento do consumo de vegetais coadjuvantes como os já citados dois
parágrafos acima. Essa possível popularização desses alimentos poderia
agradar aos nutricionistas, que ajudariam a propagá-la, e talvez até
diminuir a “moral” dos retalhos cadavéricos assados perante outras
fontes de proteínas, ferro e vitaminas. Inclusive nas mesmas escolas
públicas em que ameaçam distribuir peixes mortos.
Fonte da notícia:
http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/12/23/materia.2007-12-23.8057788103/view
Robson Fernando
Estudante e articulista amador, é dono do blog Consciência
Efervescente
http://conscienciaefervescente.blogspot.com. Entre em contato por
robfbms@hotmail.com
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