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Robson Fernando
O álcool combustível nos últimos dois anos passou a ser tratado no
Brasil como a grande panacéia da questão ambiental da energia. Quem
ainda não viu Lula anunciando feito místico ascenso, ao largo do
planeta, algo parecido com “ajoelhai-vos, países desenvolvidos, eu
tenho vossa salvaçãããooo!” quando falava maravilhas do etanol por
aí? É notável que há uma orientação muito passional nas enormes
expectativas de “um mundo melhor por ser movido a um combustível
limpo e renovável”, uma força de esperança pessoal bastante parecida
com aquela que anima a vida de religiosos e crentes em curas pela
fé, por também ser desprovida de ceticismo e encaração crítica. A
verdade é que, embora a poluição vinda do cano de escape seja
realmente bem menor, há uma contrapartida, um lado de porém, nociva
o suficiente para levantar no mínimo questionamentos ríspidos ao
caráter messiânico do álcool nos carros.
Falo de alguns problemas, dois ambientais e dois sociais, por sinal
muito sérios e que devem ser encarados com muita sobriedade, pé no
chão e atenção. Todos envolvem os lugares de onde saem a “promessa”,
os imensos latifúndios de cana-de-açúcar e sua expansão, e denunciam
a extrema fragilidade, ou mesmo a quebra, do triângulo da
sustentabilidade – Ambiental/Econômico/Social.
O primeiro fator ambiental é o nosso “amigo” desmatamento.
Lembrem-se, o Nordeste só tem sua economia sustentada pela cana
desde a época colonial porque a Mata Atlântica foi quase totalmente
varrida da região pelos latifundiários, foi reduzida a frágeis
pinguinhos onde árvores frondosas ainda se aglomeram. O mesmo serve
para São Paulo, atual maior estado canavieiro do país, onde os
canaviais tomaram muito do lugar dos cafezais da República Velha.
Dali o cerrado foi banido e a floresta tropical foi dizimada a menos
de 8% da área original. Analisando com seriedade, percebemos que só
foram possíveis a criação do Proálcool nos anos 70, a proliferação
dos carros flex na década atual e os discursos encantados de Lula
porque nossos ecossistemas foram mutilados sem piedade e sobrepostos
por “desertos verdes” que se perdem no horizonte.
E, com esse mais recente boom do etanol, a ameaça começou a se
dirigir para a Amazônia. Lacaios do governo do PT juram de pé junto
que ela não será violentada por essa nova frente de expansão
agrícola como a soja de exportação e a pecuária fizeram (e continuam
fazendo), mas, quando a grilagem de vastas terras se junta com uma
oportunidade clara de se fazer chover dinheiro, como está
acontecendo agora, fica claro que essa garantia não soa mais
garantida do que promessa de bêbado.
Esse fator sozinho já é suficiente para pôr abaixo aquela esperança
daqueles que anseiam por um combustível limpo e ambientalmente
amigável. O pior é que o mesmo problema se estende para todos
aqueles de origem vegetal.
O segundo problema é muito poluente. A presença de queimadas nos
canaviais termina compensando grande parte do que se deixa de mandar
para o ar pelo cano de escape. A plantação ainda precisa ser
queimada, em prol da remoção da palha, para uma colheita e
processamento otimizados das varas de cana. É fácil notar que uma
intensa poluição atmosférica sai desses lugares e dá ao etanol a
infeliz propriedade de “poluente duplo”, porque joga fumaça no ar
duas vezes. E mais uma vez frustram-se os que vêem nele o atributo
de “combustível limpo”.
No lado social, pesam também dois pontos contra. Primeiro, a piora
da distribuição agrária. Quem ainda não pensou e percebeu que é
impossível nossa demanda energética automobilística ser suprida por
culturas de tamanho limitado? Não precisamos de muito esforço mental
para notar que o canavial é um padroeiro fidagal do latifúndio, dos
magnatas do agronegócio, da concentração de terras enormes nas mãos
de muito poucos em detrimento dos habitantes mais humildes do
universo rural. E mais, se acontecesse no Brasil uma Reforma Agrária
verdadeira, com R e A maiúsculos, imagine qual seria um dos
primeiros produtos agrícolas colhidos em grande escala a serem
fortemente inibidos.
E algo que transmite um alerta vermelho para toda a humanidade é o
segundo ponto crucial da insustentabilidade etílica. A sede do
agronegócio canavieiro, com a alcoolmania, do mesmo jeito que tem
potencial de avançar varrendo ecossistemas, não poupa nem mesmo
cultivos de alimentos. Primeiro foi grande parte daqueles cafezais
que garantiam o grosso de exportações brasileiras nas primeiras
décadas do século 20, e agora é qualquer cultura alimentícia,
incluindo feijão e arroz, que é sobrescrita pela bem mais lucrativa
cana-de-açúcar. Novamente a questão do dinheiro fácil encanta os
agricultores, que imprudentemente abandonam os antigos produtos e
abraçam a fonte do etanol. Isso, como de se esperar, está diminuindo
a oferta de comida e aumentando seus preços, tendo sido denunciado
como um dos culpados pela crise dos alimentos que pipocou este ano e
não tem prazo para ser totalmente debelada.
Percebemos com esses e outros pontos que o álcool combustível, ao
menos como conhecemos hoje, está muito, muito longe da
sustentabilidade e seu caráter de “limpo” é de certa forma mais uma
ilusão desenhada pelas passionais esperanças da humanidade pela
queda da poluição atmosférica do que uma salvação garantida. Por
isso é que estamos condenados a ficar entre a cruz e a espada quando
abastecemos nosso carro: ou a gasolina muito poluente e limitada
pela natureza, ou o álcool de muitos inconvenientes ou... o gás
natural, pouco poluente mas tão finito quanto o petróleo. O
hidrogênio, considerado a verdadeira solução, ainda não chegou, e
motiva tristeza o fato de o etanol não ser um recurso bom o bastante
para preencher provisoriamente sua lacuna de combustível limpo e
virtualmente inesgotável. Não vejo outro jeito de alcançar uma real
segurança energética que não seja pressionar pela vinda o mais logo
possível do H2.
Robson Fernando
Estudante e articulista amador, é dono do blog Consciência
Efervescente
http://conscienciaefervescente.blogspot.com. Entre em contato
por robfbms@hotmail.com
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