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Robson Fernando
A gestão ambiental é uma profissão que encontrou um caminho sem
volta de ascensão e prosperidade, crescendo cada vez mais em todo o
Brasil e no mundo. Ao longo do tempo, aumenta o interesse e a
pressão pública nas empresas para que elas tomem medidas de
mitigação de impactos ambientais, recuperação de áreas naturais
degradadas, compensação do passivo ambiental e racionalização da
gestão de recursos naturais, inclusive com a obtenção dos selos
ISO14000, referentes ao alcance da excelência na gestão ambiental
empresarial. Essa pressão da opinião pública também recai sobre o
governo, para que ele, através do IBAMA e do Ministério do Meio
Ambiente, melhore a fiscalização e recrute profissionais de meio
ambiente mais competentes e seus órgãos e instituições também adotem
sistemas de gestão ambiental. No entanto, há um detalhe com que os
cursos de GA parecem não se preocupar. Esse detalhe é a manutenção
da integridade da vida animal, incluindo também a abolição da
crueldade contra os bichos. E é importante que comecemos a relevá-la
dentro do âmbito gestor ambiental.
A primeira relação inseparável entre GA e a libertação animal está
na sustentabilidade. Ao longo dos últimos 300 anos, a pecuária
recrudesceu como causa de muitíssimos danos ambientais, incluindo
poluição, desmatamento desenfreado - vide abertura de pastos e vasta
plantação de monoculturas que servem forragem animal - e emissão de
gases-estufa e, mesmo com medidas como “boi orgânico” ou “boi
verde”, continua tendo numerosos e imensos impactos nos
ecossistemas. Sabe-se que um único boi, até atingir cerca de 500
quilos, terá consumido até seu encarceramento derradeiro e execução
uma média de um hectare inteiro de pasto. O vegetarianismo e
veganismo, como medidas tomadas por consciência ética e respeito
imparcial à vida dos animais, também têm benefícios ambientais, na
diminuição dessas conseqüências desastrosas paralelamente à poupança
da vida dos bichos. É certo que haveria desemprego com a abolição da
pecuária, mas notemos que essa abolição jamais será abrupta como a
falência de uma empresa e sua reabsorção no mercado de trabalho será
alvo de cooperação entre os gestores, fazendeiros, os próprios
empresários de agronegócio, desde que adotem mercados alternativos,
como o de substitutos 100% vegetais de carne e leite, e outros ramos
profissionais que mitiguem as conseqüências da lenta extinção de
empregos pecuários.
Outro detalhe é que sabe bem um estudante de GA que a lei respalda o
bem-estar do animal, seja ele doméstico, rural ou silvestre, como
parte de um meio ambiente sadio. Tem destaque o Artigo 225 da
Constituição Federal, parágrafo 1º, inciso VII, que veda práticas
que submetam animais não-humanos à crueldade, e a Lei de Crimes
Ambientais (9.605/98), Artigo 32, que pune com o rigor da lei maus
tratos contra os bichos, sem falar de leis mais localizadas, como a
Lei 4.685/2007, que pune crueldade contra eles no Rio de
Janeiro-Capital. As duas primeiras leis contra maus tratos estão
misturadas com o universo de legislação ambiental escancarado pela
Carta Magna Brasileira e a LCA, o que implica que, ao menos
legalmente, há ligações essenciais entre a harmonia ambiental e o
bem-estar animal. Uma hipótese minha do que essas ligações se tratam
na prática é que o respeito aos animais não-humanos está inserido:
a) na dignidade social, uma das pontas do triângulo que orienta o
gestor ambiental - além do desenvolvimento econômico e da
preservação ambiental -, uma vez que não é possível uma população
socialmente digna sem que seus companheiros não-humanos façam parte
de uma relação social adequada e sejam tratados com dignidade,
respeito e zelo; b) na qualidade ambiental urbana, uma vez que
precisamos zelar para que o problema do abandono de cães e gatos
seja minimizado (nada de extermínio nazístico de animais de rua, por
favor!) e assim não haja aquela propagação de doenças típica de
cidades ambientalmente desarrumadas; c) na educação ambiental, uma
vez que a ignorância que leva um carroceiro a agredir seu cavalo é a
mesma que o faz desmatar bosques e capturar animais silvestres para
vender, visto que ele não sabe lidar com a natureza viva (animal e
vegetal) com consciência; d) no freio de atitudes ambientalmente
irresponsáveis de empresas de agronegócio, uma vez que muitas
empresas que superexploram a pecuária também desmatam freneticamente
para nutrir os gados explorados. Ainda que essa ligação não pareça
tão evidente assim no cotidiano vivido pelo pretendente a gestor
ambiental, este ficará incumbido de fiscalizar o tratamento dos
bichos e também de ajudar a parar a maldade humana que inferniza o
Reino Animal.
Algo que lamento acerca da atitude do curso e da profissão é sua
visão atual ainda estagnada sobre os direitos dos animais, apesar de
todas aquelas ligações entre meio ambiente e respeito imparcial aos
animais não-humanos. O setor (e disciplina acadêmica) de gestão de
recursos naturais ainda trata a fauna como uma fonte de recursos
para o homem, deixando a entender que a preocupação padrão de um
gestor no que tange ao tratamento reservado ao Reino Animal
não-humano é no máximo de promover bem-estarismo aos bichos rurais
explorados ou cuidar do monitoramento, triagem e proteção dos
animais silvestres, ficando assim mantida a permissão para a
exploração quase livre - uma vez que o bem-estarismo não permitiria
crueldades extremas - dos animais vítimas do mundo rural.
Dada essa visão estagnada, fica a falta de estímulo para que o
profissional em gestão ambiental inclua no seu amor à profissão o
amor imparcial aos animais não-humanos, à fauna universal, e também
fica exposta uma lacuna ética. Do mesmo jeito que o gestor ambiental
é apaixonado pela natureza íntegra e preservada, independente de
qual seja o ecossistema, desde a vegetação semi-árida natural à
floresta tropical, ele deveria também zelar pelos animais sem
acepção (excetuando a erradicação de parasitas que são nocivos aos
animais domesticados e aos humanos). E, da mesma forma que é um
dever ético que o gestor não apóie atos de exclusão humana ainda que
fosse para recomposição florestal, ele deveria ter o também dever
ético de repudiar a exploração animal, ainda mais aquela que
invariavelmente polui e devasta o meio ambiente ao redor.
Fica minha recomendação aos professores e alunos dos cursos de
Gestão Ambiental e os que já se formaram: procurem dar mais atenção
à problemática da exploração e matança dos animais não-humanos, uma
vez que está dito que a relação homem-bicho também é parte
integrante do panorama ambiental. Uma sugestão que pega desprevenido
os próprios gestores ou pretendentes: comecem consigo mesmos os
esforços de preservação ambiental, deixando de consumir alimentos e
produtos vindos de bichos mortos ou escravizados. E não adianta dar
a desculpa da “cultura de consumo de animais”, porque a própria
cultura é algo que o gestor ambiental precisa obturar e ajustar para
que a sustentabilidade seja alcançada. Do mesmo jeito que vocês
ajudariam a melhorar os parâmetros culturais de uma comunidade
tradicional que estivesse esgotando as árvores próximas para fazerem
esculturas de madeira, podem muito bem ajustar os de sua própria
sociedade. Começando por vocês mesmos.
Robson Fernando
Estudante e articulista amador, é dono do blog Consciência
Efervescente
http://conscienciaefervescente.blogspot.com. Entre em contato por
robfbms@hotmail.com
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