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27/03/2006
"Nem todo mundo que entra na USP tem um futuro brilhante". Com
esse slogan e uma foto de um cachorro em outdoor, a universidade
do campus da USP, capital, lançou há pouco, uma campanha para
diminuir o abandono de cães e gatos neste local. A idéia é
estimular o debate sobre o assunto e fazer com que as pessoas
denunciem casos de abandono e maus-tratos, além de estimular a
adoção dos que estão alojados em um laboratório veterinário dentro
da prefeitura da Cidade Universitária, no campus do Butantã – zona
Oeste.
Folders e cartazes foram distribuídos, chamando a atenção da
população sobre o conceito de posse responsável e do controle de
natalidade dos animais domésticos, que procriam de maneira
exponencial. Os CCZs (Centro de Controle de Zoonoses) só não estão
abarrotados porque os sacrificam, de uma maneira geral, sem
chance, sem piedade, de forma muito cruel, abominável.
O ponto central dessa questão é o amor à vida, pois ela não deve
ter o homem como exclusividade, e esse abandono significa uma
falta de educação, como pensa a professora Julia, da Faculdade de
Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (FMVZ), que a tenho,
dentro dos meus princípios profissionais e éticos, mesmo sem
conhecê-la pessoalmente, uma assumidade em pessoa, que divide até
umas bolachinhas com os bichinhos esfomeados. Uma grande lição aos
zootécnicos em formação, ou aos que precisam de uma reformulação
de conceitos.
As tristes observações no campus de gatos enforcados, com olhos
furados, queimados e cães de pernas fraturadas, esfaqueados, ou
feridos com tiros de borracha, sensibilizaram a equipe de Julia a
tomar esta coerente decisão.
Claro que essa situação não se restringe apenas no campus da
capital. Nos campi do interior, vira-e-mexe, encontram-se novos
bichos (não alunos), principalmente perto de restaurantes
universitários, tímidos, medrosos, esqueléticos em busca de
alimentos. Os gatos são os mais abandonados, porém, permanecem
mais discretos, de acordo com seu astuto temperamento.
Nesses locais de ensino, de educação, cuja função é formar
cidadãos conscientes, que, dentre os quais, temos o atual ministro
da agricultura do governo Lula, Roberto Rodrigues, formado em
engenharia agronômica, na Esalq (Escola Superior de Agricultura
Luiz de Queiroz), em Piracicaba, existem os que chutam os cães,
destroem casinhas de gatos, feitas com carinhos pelos voluntários,
que cuidam com muito amor desses animaizinhos, quando não os
encontram envenenados, praticamente destroçados, com seus miados
tristes, agonizantes, desesperados pela dor, por passar dias e
mais dias de sofrimento.
Já se constatou muitos relatos de maus-tratos nesses locais, e o
símbolo disso, na Esalq, é a cadela Xuxa, dócil, amorosa, que
depois de trucidada, com arcada dentária superior cravada no
queixo, com a coluna fraturada pelas pauladas desferidas por um
insano, cruel, miúdo de amor, de sensibilidade e de caráter, ainda
chegou se arrastando ao seu reduto, quando seu algoz pensava ter
concretizado seu intento. Por exercer um cargo de confiança, calou
a boca de quem sabia, mas não calou a voz de sua consciência, que,
embora esteja em estado de profunda latência, movido pela sua
própria ignorância, mais tarde irá prestar contas de seus atos à
justiça divina.
A campanha desse grupo do campus da capital, com o apoio do Fundo
de Cultura e Extensão Universitária, é digna de elogios e deve ser
estendida a todas as universidades do país, contribuindo para
aumentar a consciência das pessoas para que não abandonem, não
descartem esses pobrezinhos como se fossem meros objetos.
Que o exemplo, inclusive, de alguns veterinários da USP, sirva
para que os veterinários de todos os locais do país ajam com
presteza, com ética, através da mídia, e ajudem no combate às
barbáries cometidas contra os animais, prestando um grande
benefício ao colaborarem com a esterilização, e, principalmente,
ao se pronunciarem sobre tantas inverdades que os leigos, sem
papas na língua, tentam colocar na cabeça dos mais ignorantes,
ainda, a respeito de doenças transmitidas pelos animais, do gato
preto que dá azar, e de outras crenças absurdas que somente fazem
aumentar o abandono dos pobrezinhos.
João O. Salvador
Biólogo da USP (Universidade de São Paulo)
colaborador do Jornal de Piracicaba,
Gazeta de Piracicaba e Tribuna Piracicabana
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