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02/09/2005
PAUL RINCON
da BBC Brasil
Os primeiros casos da doença da vaca louca, ou encefalopatia
espongiforme bovina, podem ter sido causados por ração animal
contaminada por restos de seres humanos mortos, segundo uma teoria
nova e controversa.
O estudo feito por cientistas britânicos e publicado no jornal "The
Lancet" diz que material importado do sul da Ásia nos anos 1960 e
1970 para a fabricação de ração animal e fertilizante continha
ossos e cartilagens humanas.
Se esses restos mortais estavam infectados por príons (um tipo de
proteína) de doenças como CJD --doença de Creutzfeldt-Jakob, um
mal do cérebro, eles podem ter sido a origem da encefalopatia
espongiforme bovina.
Vários especialistas, porém, mostraram ceticismo em relação a essa
teoria.
Os autores da teoria reconhecem que suas provas não são
conclusivas, mas argumentam que ela é plausível o bastante para
merecer investigação mais profunda.
Funeral hindu
O surgimento da forma humana do mal da vaca louca, conhecida como
variante CJD (vCJD), está ligada ao surto da encefalopatia.
Os príons proteínas anormais que causam a CJD e a vCJD em seres
humanos, encefalopatia espongiforme em vacas e scrapie em
ovelhas-- são altamente resistentes tanto à desintegração natural
quanto à esterilização.
O Reino Unido importou centenas de toneladas de ossos esmagados e
carcaça nos anos 1960 e 1970 para produzir fertilizantes e ração
para gado.
Cerca de 50% dessas importações saíram de Bangladesh, Índia e
Paquistão, onde a coleta de ossos e carcaças no interior e em rios
é uma prática comercial estabelecida.
A prática funeral hindu determina que os restos humanos sejam
despejados em um rio, de preferência o Ganges. O ideal é que o
corpo seja cremado, mas muitas pessoas não têm recursos para pagar
a cremação, segundo os autores da teoria.
Em alguns casos seria suficiente esfumaçar a pélvis, no caso das
mulheres, e o torso, no caso dos homens. Muitas vezes, cadáveres
intactos são jogados no Ganges.
"Existe uma série de preocupações de saúde pública em relação à
poluição do Ganges", disse à BBC o professor Alan Colchester,
chefe de equipe que elaborou a teoria da contaminação das rações
animais.
"Mas em meio ao reconhecimento de problemas potenciais, não acho
que alguém pensou no risco, raro mas muito importante, criado pelo
cadáver de alguém que morreu de uma versão de CJD."
Já houve relatos de casos de restos mortais de seres humanos terem
sido encontrados em material entregue às fábricas de
processamento. Nos anos 1960 foi confirmado um caso de material
humano em carregamentos de ossos embarcados em portos da Ásia para
a França.
Um porta-voz do Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e
Assuntos Rurais do Reino Unido disse que essa teoria se assemelha
à de um relatório de 2001 que apresentava a hipótese de que a
origem da encefalopatia espongiforme bovina era scrapie (versão
ovina da doença).
Baixa probabilidade?
"Certamente é uma possibilidade que não se pode descartar
completamente, mas eu diria que ela está bem baixa na escala de
probabilidades", disse o professor da Universidade de Bath David
Brown, especialista em doenças causadas por príons.
O professor Colchester estima que cerca de 120 hindus morrem de
CJD a cada ano.
O professor Brown, porém, observa que os mais pobres, que
correspondem a muitos dos corpos no Ganges, têm expectativa de
vida mais baixa. As doenças de príons surgem predominantemente em
pessoas mais velhas.
Para o professor Susarla Shankar, chefe de Neurologia do Instituto
Nacional de Doenças Mentais e Neurociências de Bangalore, na
Índia, a teoria não se sustenta.
"Se fosse assim, deveríamos encontrar mais casos de BSE no gado na
Índia. No momento, o centro de controle não registra um único
caso", disse.
A coleta de ossos é uma prática tradicional, segundo ele, mas
mesmo que algum resto humano chegasse à ração animal as
conseqüências seriam reduzidas.
Resistência
Pesquisa em laboratório mostrou, porém, que é necessária uma
quantidade mínima de tecido cerebral contaminado para transmitir a
forma humana CJD a primatas não-humanos.
Em 1980 foi evidenciado que a forma infecciosa dessas proteínas
pode sobreviver uma cadeia inteira de processamento que leva à
produção de ração animal.
O uso de ração para alimentar animais de fazenda está proibido
desde 1996 na Europa e as regulamentações de alimentos de origem
animal foram apertadas.
Mesmo assim, casos esporádicos de encefalopatia espongiforme
bovina foram registrados no Reino Unido e outros países da Europa
depois disso, sendo que não há explicação para eles.
A incidência da doença vem caindo e especialistas esperam que ela
possa ser erradicada se forem mantidas as medidas sanitárias
adotadas para controlar a doença.
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