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10/02/2006
Rafael Veríssimo / Agência
USP
Professores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ)
da USP estão utilizando uma substância que diminui o sacrifício de
animais para fins educativos. A solução de Larssen, usada para
embalsamar cadáveres humanos, foi modificada por pesquisadores da
FMVZ, que adicionaram glicerina à fórmula original. Aplicada no
sistema vascular dos animais mortos, a solução permite aos
professores reutilizar (congelar e descongelar) um cadáver por até
sete ou oito vezes, equivalentes, aproximadamente, a um semestre
letivo.
Quando buscavam alternativas para a eutanásia animal, os
pesquisadores da FMVZ encontraram num hospital da França a solução
de Larssen. Aplicada nos animais, no entanto, a solução francesa
ainda mantinha os tecidos enrijecidos. O problema foi resolvido
pelo professor da FMVZ, Antônio Augusto Coppi Maciel, que
introduziu 400 mililitros (mL) de glicerina líquida na fórmula-mãe
da solução, que ainda conta com 100 mL de formalina a 10%, 200
gramas (g) de bicarbonato de sódio, 200 g de hidrato de cloral,
180 g de cloreto de sódio e 2000 mL de água destilada.
O uso da solução, que acontece desde 2000 na FMVZ, permite que os
cadáveres quimicamente tratados preservem seus tecidos
(principalmente pele e músculos) com a mesma cor e flexibilidade
de quando os animais estavam vivos, além de não desprenderem o
cheiro característico de putrefação.
Treinamento
Submetidos à substância modificada, os cadáveres de cães doados
por seus donos ao Hospital Veterinário (Hovet) da FMVZ, são usados
na disciplina de Técnica Cirúrgica da faculdade para o treinamento
de nós e suturas, de técnicas de reconstrução da pele (anaplastia),
cirurgias da orelha, da cavidade oral, de anastomose intestinal
(em que se corta e sutura o intestino novamente) e esofagotomia
vertical. Também são feitos treinamentos de traqueostomia,
ressecção de glândula mandibular e sublingual.
As cirurgias de castração de machos (orquiectomia) e fêmeas (ovariosalpingohisterectomia),
realizadas em animais vivos, são feitas com supervisão de
professores em campanhas de castração do Hovet, treinamento que
possibilita um aprendizado também utilizando animais vivos.
"Antes, sacrificávamos cerca de 440 cães saudáveis por ano para
que o aluno pudesse treinar sua destreza cirúrgica. Hoje,
utilizamos apenas 40, sendo que todos já estavam mortos quando
chegaram a nós", aponta Júlia Maria Matera, professora de Técnica
Cirúrgica da FMVZ que começou utilizar o método em sala de aula em
2000.
Avanço ético
Segundo Júlia, os métodos alternativos de treinamento cirúrgico
vêm ganhando cada vez mais espaço em todo o mundo. "Nos
Estados Unidos, das 31 faculdades de medicina veterinária
existentes, 27 não fazem mais uso de animais vivos".
Além da utilização de cadáveres e de vísceras de animais abatidos
em matadouros, como acontece na FMVZ, existem diversos aparelhos e
instrumentos que simulam órgãos e tecidos para o treinamento de
estudantes. "No Brasil, no entanto, a maioria das faculdades ainda
usa animais vivo", aponta Júlia.
A professora destaca que, além de um avanço ético, o método é um
progresso no que diz respeito ao estresse ao qual o estudante é
submetido. "Para grande parte dos alunos era difícil ver o cão
todo feliz, brincando com eles antes da aula, sabendo que
depois iríamos anestesiá-los e sacrificá-los. Sem esse tipo de
estresse o aluno fica mais tranqüilo e
consegue absorver mais o conteúdo da aula", conta.
A aceitação entre os alunos é alta. Em mestrado entregue à FMVZ, a
pós-graduanda Rosane Maria Guimarães da Silva aponta que entre 190
estudantes que cursaram a disciplina de Técnica Cirúrgica entre
2001 e 2003, 93,29% são a favor do método de ensino que inclui o
treinamento inicial em cadáveres, seguido de castrações em
campanhas. Já 84,79% considerou que o conteúdo da aula foi bem
assimilado. Segundo Júlia Matera, alguns alunos ainda consideram
inadequado utilizar os animais mortos em sala de aula no lugar dos
vivos, que dariam mais realismo ao aprendizado. Porém, para ela,
"anormal é usar animal vivo para o treinamento básico".
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