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Bicho também é
gente, e vice-versa
http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup44899,0.htm
Além de parentes nossos (Darwin explica), os animais também
sofrem, sentem dor, entram em pânico e se estressam
Sérgio Augusto - O Estado de S.Paulo
- Segunda-feira, ao anunciar o Projeto Caju, o presidente Lula
lamentou ter passado a infância preferindo comer as preás que seus
irmãos caçavam em vez de caju, que no Nordeste é mato. "Em algum
momento da história, algum de nós cometeu um erro contra o caju."
E os "erros" que até hoje se cometem contra as preás, presidente?
No mesmo dia em que Lula admitiu, en passant, que caçar e comer
preás é "uma prática ambientalmente incorreta", o professor Isaias
Raw, presidente da Fundação Butantã, publicou neste jornal um
artigo sobre um projeto de lei, em tramitação na Câmara dos
Deputados, estabelecendo normas para assegurar o bem-estar animal
em experiências científicas. O artigo, polido e informativo,
assegurava que a lei interromperia completamente a produção de
vacinas e remédios. Outros cientistas já se manifestaram sobre o
assunto, com a mesma dose de alarmismo, não raro enfiando nos que
combatem o tratamento cruel imposto a animais em laboratórios a
carapuça de monstros sádicos que menosprezam a saúde pública.
O autor do projeto é o deputado Ricardo Tripoli, que, por ser
tucano, corre o risco de ser tachado de corporativista por algum
cientista metido a engraçadinho. Tripoli, que só é ave
metaforicamente, tem pelos bichos uma compaixão que deveria ser
compartilhada por todos os seus semelhantes. Há dois anos, ainda
deputado estadual, conseguiu que a Assembléia Legislativa de São
Paulo aprovasse o Código de Proteção dos Animais, que proibia a
realização de rodeios e a criação de animais em confinamento, como
aves e bovinos. Por pressão da Federação da Agricultura do Estado
de São Paulo (Faesp), o Tribunal de Justiça do Estado concedeu
liminar, suspendendo a aplicação do código, que, segundo o
presidente da Faesp, traria "conseqüências nefastas" ao setor
produtivo por ele representado, "como a desestabilização das
atividades e da própria economia do Estado, além do aumento do
desemprego". Só faltou incluir entre as "conseqüências nefastas"
do código a bancarrota de Barretos, a aceleração do aquecimento
global e o aumento da violência urbana.
Claro que, se transformados em leis, os projetos do tucano poriam
em risco a sobrevivência de circos, rodeios, laboratórios,
avicultores, suinocultores e pecuaristas defasados, irresponsáveis
e desumanos. Isso não é bom, é excepcional, já que nos atualizaria
com o que nações mais civilizadas e cientificamente mais
qualificadas já vêm implementando há anos.
A comunidade científica brasileira sabe que, aspas para o
professor Raw: "muitas pesquisas vêm sendo realizadas para
desenvolver ensaios que possam ser realizados sem usar animais
vivos". Já há quem esteja na pista de organismos especialmente
criados, imunes a dor e a qualquer tipo de estresse e sofrimento,
para que camundongos, ratos, coelhos, macacos, gatos e outros
bichos possam ser definitivamente alforriados pelos sinhôs de
proveta. Não são ralas as esperanças de que pesquisadores do J.
Craig Venter Institute, nos arredores de Washington, por exemplo,
estejam próximos de obter resultados surpreendentes, manipulando
bactérias e outros organismos que poderão tornar inútil o tão
temido artigo 110 do projeto de lei de Ricardo Tripoli, que "veda
o uso de animais para fins científicos quando causar dor, stress
ou desconforto ao animal".
O deputado poderia fazer uma emenda ao projeto, estendendo o
benefício do "tratamento digno" aos seres humanos que, por
ventura, venham tomar o lugar dos animais em pesquisas
científicas. É um velho sonho de muita gente: terroristas,
estupradores e assassinos irrecuperáveis redimindo-se de seus
crimes ajudando a salvar a humanidade no lugar de seres
não-humanos que mal algum causaram aos humanos. Direitos iguais
para todos. Afinal, é isso que preconizam os paladinos da
"libertação animal", aqui e ali hostilizados e perseguidos como o
foram os primeiros abolicionistas, as primeiras sufragistas e os
primeiros ativistas do movimento pelos direitos civis.
Na semana retrasada, os jornais divulgaram a história (com final
feliz) de um elefante viciado em heroína por traficantes de
animais ativos na fronteira de Mianmá e China (aquele país que,
para combater a raiva, chacinou 54.429 cães, muitos deles já
vacinados). Os traficantes em questão também podiam ser
trancafiados num laboratório para testes de vacinas e, em
especial, resistência a drogas - com todos aqueles que promovem
rinhas de galo (abra o olho, Duda Mendonça!), brigas de cachorro,
touradas, farra do boi, traficam marfim e trucidam rinocerontes
para, com seu chifre, criar poções falsamente miraculosas.
Faço essa sugestão sem o menor constrangimento, pois não padeço do
que o filósofo moral Peter Singer chama de "especiesismo",
preconceito de espécie, similar (mas não igual, esclareça-se) ao
racismo e ao escravismo: uma forma de discriminação que coloca os
humanos num pedestal, como os únicos repositórios de todos os
valores morais, e despreza os seres de outras espécies. O fato de
sermos racionais só aumenta a nossa responsabilidade em relação às
demais espécies, a nossa obrigação de termos compaixão por aqueles
que, além de parentes nossos (Darwin explica), também sofrem,
entram em pânico, se estressam, sentem dor - e são mais solidários
do que nós.
Em 23 de janeiro de 1994, o Jornal do Brasil publicou uma
reportagem cujo título (Crueldade com animais preocupa cientistas)
só dizia da missa a metade. Seu subtítulo (Especialistas temem que
Brasil se torne território livre para experiências já proibidas
nos países da Comunidade Européia) antecipava um futuro
preocupante. Treze anos se passaram e nem o mais brando projeto de
lei voltado especificamente para a regulamentação de uso de
animais em pesquisas científicas, apresentado em 1995 pelo
sanitarista (e então deputado) Sérgio Arouca, conseguiu emplacar.
Somos atrasados em inúmeras coisas, e uma delas diz respeito aos
avanços da ciência. A Fiocruz, por uns tempos dirigida por Arouca,
demorou a suspender o crudelíssimo teste de irritação ocular em
coelhos (teste de Draize), dispensado, havia tempo, em países mais
adiantados. A quantos outros sofrimentos superados e dispensáveis
não submetemos as cobaias de nossos laboratórios?
O lado exclusivamente científico da questão é por demais complexo
para as dimensões de um artigo. Já os demais, não. Nada justifica
que, visando basicamente ao lucro e à vaidade, floresçam,
infrenes, uma indústria de alimentos cuja matéria-prima é o
resultado de uma sucessão de torturas e uma indústria de roupas e
calçados afeita a práticas nefandas. Agasalhos de pele animal só
deveriam ser usados por esquimós. Tenho a maior simpatia pelos
ativistas da Peta (People for the Ethical Treatment of Animals),
que costumam manchar de tinta vermelha os casacos de pele das
dondocas do eixo Nova York-Paris e fazer campanha contra a editora
de moda da revista Vogue, Anna Wintour, não por ela vestir Prada,
mas por ser uma diaba que veste e incentiva o consumo de peles,
que só nos animais são bonitas.
http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup44899,0.htm
falecom@estado.com.br
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