|
Revista Época - Edição 396 - Dez/05
As
melhores pistas sobre a verdadeira natureza humana podem ser
fornecidas pelos parentes mais próximos. As referências são duas
espécies de macacos africanos, tão distintos quanto água e vinho.
De um lado, os guerreiros chimpanzés, que formam bandos dominados
por um macho e constroem complexos jogos políticos de aliança,
traição e assassinatos. Do outro estão os bonobos, os autênticos
hippies do mundo animal. Eles já foram batizados de macacos gays
pela freqüência de contatos homossexuais. Mas trata-se, na
verdade, de uma espécie totalmente bissexual e promíscua, que vive
um matriarcado em que as disputas são decididas de forma pacífica.
'Somos uma mistura dos dois', defende o holandês Frans de Waal, um
dos mais respeitados especialistas em primatas do mundo, em seu
livro Our Inner Ape (Nosso Macaco Interior), que sairá no ano que
vem pela Companhia das Letras.
Frans de Waal
Dados pessoais
Nascido em s-Hertogenbosch,
na Holanda, em 1948. Vive em Atlanta, nos EUA, desde 1981. Casado
Carreira
Professor da Emory University, na Geórgia
Livros
Chimpanzee Politics (Política Chimpanzé) e Peacemaking among
Primates (Negociações de Paz entre Primatas), premiado com o Los
Angeles Times Book Award
ÉPOCA - Por que os macacos seriam importantes para entender
nossa verdadeira natureza?
Frans de Waal - Porque somos macacos. Talvez alguns
leitores não concordem com isso. Mas fazemos parte do grupo dos
pongídeos, que também inclui os chimpanzés, bonobos, gorilas,
orangotangos e gibões. São primatas com cérebro maior, postura
ereta, sem cauda, com habilidade para fazer ferramentas. Esses
macacos são nossos parentes mais próximos. Tanto que é difícil
para os biólogos distinguir esses macacos de nós a partir de
características anatômicas e DNA. Temos algumas diferenças, mas a
maior parte de nosso comportamento é bem semelhante. Além disso,
tudo o que temos para imaginar como seriam os homens
pré-históricos são fósseis. O comportamento não fossiliza. É por
isso que as especulações sobre como eram os humanos na
Pré-História geralmente se baseiam no conhecimento de outros
primatas.
ÉPOCA - Quais comportamentos são semelhantes entre humanos
e macacos?
Waal - É mais fácil perguntar quais são as diferenças.
Quase tudo o que descrevemos como características humanas - amor,
medo, cooperação, poder, reconciliação e imaginação - existe entre
esses macacos. A grande diferença é a nossa capacidade de
linguagem. Ela nos abriu várias outras possibilidades, como
transmissão de conhecimento e hábitos. Alguns macacos podem ser
treinados para entender alguns aspectos de linguagem, mas nenhum
deles pode falar como nós. A outra diferença é que temos famílias
nucleares. São estruturas sociais em que os machos estão
envolvidos na criação dos filhos. Isso é único entre esses grandes
primatas.
ÉPOCA - Nossa estrutura familiar é cultural ou fruto da
natureza?
Waal - É parte de nossa herança biológica. Isso fica claro
pela pequena diferença de tamanho entre homens e mulheres, o que
sugere uma relação de poder mais igualitária. Os testículos do
homem também são relativamente menores que entre outros machos de
primatas. Isso indica que há pouca competição por quem libera mais
esperma na cópula com as fêmeas. Também temos hormônios que
estimulam sentimentos de apego e amor, que são típicos de espécies
que formam casais. Isso também acontece em espécies de aves, como
pingüins e cisnes.
'' Temos tendências agressivas, como os chimpanzés. Mas também
sabemos construir uma sociedade baseada na cooperação e em
relações de troca, como os bonobos ''
ÉPOCA - É verdade que apenas um verniz civilizatório
controla nossa natureza agressiva?
Waal - Temos uma tendência de atribuir os comportamentos
negativos, como crimes brutais, a instintos da natureza. Dizemos
que agimos como animais. Por outro lado, nossas características
positivas, como altruísmo e empatia, são tidas como humanas. Mas o
estudo dos macacos revela que todos esses tipos de comportamento
são ancestrais nos primatas. Outra teoria em voga afirma que nossa
agressividade é uma novidade. Argumenta-se que os humanos são os
únicos que matam os membros da própria espécie. Como se não
tivéssemos nosso instinto assassino sob controle, como ocorreria
com outros predadores mais profissionais, como leões. Isso não se
sustenta diante das evidências. Quando um gorila assume a
liderança de um bando, ele persegue as fêmeas e mata os filhotes
do antecessor. É comum chimpanzés machos fazerem alianças para
matar outros na intrincada luta pelo poder dentro do grupo.
ÉPOCA - Faz sentido comparar os humanos com espécies tidas
como primitivas?
Waal - Em termos biológicos, os macacos atuais são tão
modernos quanto nós. Tivemos um ancestral em comum há cerca de 5,5
milhões de anos e, de lá para cá, tanto os macacos quanto os
hominídeos evoluíram em paralelo. O que acontece é que
provavelmente eles mudaram menos que nós, principalmente em
inteligência. Uma vez que os humanos desceram das árvores,
aprenderam a andar sobre duas pernas e desenvolveram um cérebro
maior. Não sabemos qual espécie atual é mais próxima de nosso
ancestral comum com os macacos. Mas provavelmente serão os
chimpanzés e os bonobos.
ÉPOCA - O que partilhamos com essas espécies?
Waal - Provavelmente possuímos um pouco de cada um dos
dois, tanto chimpanzés quanto bonobos. Temos tendências agressivas
e territorialistas, como os chimpanzés. Mas também sabemos
construir uma sociedade baseada na cooperação e em boas relações
de troca, como os bonobos.
ÉPOCA - Os ancestrais humanos não tinham hábitos
agressivos?
Waal - Não há evidência que tenham sido tão violentos
quanto os humanos nos últimos milênios. De um ponto de vista
evolucionário, esse último período histórico, de guerras e
conquistas, é irrelevante. O que interessa é que, durante milhões
de anos, nossos ancestrais devem ter levado uma vida pacífica em
grupos pequenos de caçadores-coletores, com pouca necessidade de
brigar entre si, já que o mundo era pouco povoado. Se eles
conquistaram o mundo, pode ter sido por seu sistema imunológico
superior ou maior capacidade para conseguir comida. É raro uma
espécie suplantar a outra por combate direto.
ÉPOCA - Por que os chimpanzés são tão mais estudados que os
bonobos?
Waal - Para começar, porque há apenas 150 bonobos em zôos.
É pouco quando se compara com os milhares de chimpanzés. Além
disso, eles vivem em partes da África hoje dentro da República
Democrática do Congo, um país com conflitos étnicos e guerra
civil. O trabalho de campo com os bonobos, que só começou na
década de 1970, tem sido impraticável recentemente. Mas há outro
motivo. Os bonobos são tão pacíficos que não se encaixam nas
teorias que foram construídas para justificar o comportamento
humano. Elas nos enquadram como macacos assassinos. Enfatizam
aspectos como guerras, violência, luta pelo poder e dominação
masculina. Mas as primeiras pesquisas sobre os bonobos mostraram
outro quadro. Eles são pacíficos, eróticos e têm uma estrutura de
poder dominada pelas fêmeas. E isso é outro problema. Poucos
pesquisadores têm coragem de abordar a sexualidade dos bonobos. Na
década de 1990, cinegrafistas britânicos foram às florestas mais
remotas da África para filmar os macacos. Mas desligavam a câmera
toda vez que uma cena embaraçosa aparecia no visor.
ÉPOCA - A característica mais famosa dos bonobos é
freqüência de relações entre indivíduos do mesmo sexo. Eles são
gays?
Waal - Esse termo não é correto porque soa como se a
espécie tivesse alguma preferência homossexual. Eles são mais
pansexuais ou bissexuais. Têm sexo em todas as combinações. E não
apenas para fins reprodutivos. Eles fazem sexo para reduzir as
tensões, estabelecer amizades, fazer as pazes depois de uma briga
ou simplesmente mostrar carinho. As fêmeas esfregam seus genitais
umas nas outras como forma de expressar amizade e confiança. É um
dos principais mecanismos de coesão social na espécie. Os machos
fazem o mesmo, embora com menor freqüência. Mas não conheço nenhum
bonobo que se restrinja ao sexo com membros do próprio gênero. Ao
contrário, eles são promíscuos e bissexuais. Conhecem todas as
posições do Kama Sutra, e mais algumas outras, como os dois
parceiros pendurados em um galho, de cabeça para baixo.
ÉPOCA - Por que eles são tão promíscuos?
Waal - Uma das características mais interessantes do
erotismo entre os bonobos é que o sexo está totalmente integrado à
vida social. Enquanto nós usamos apertos de mão e tapinhas nas
costas, os bonobos fazem cumprimentos genitais. Uma cena que
ilustra isso foi filmada por nós num parque de animais, próximo de
San Diego, na Califórnia. O grupo de macacos tinha acabado de
receber comida. Mas uma das fêmeas, batizada de Leonore, não se
aproximava porque não se dava bem com um dos machos do grupo.
Percebendo isso, Loretta, a fêmea mais velha e líder do bando, se
aproximou de Leonore e esfregou os genitais no ombro dela. Leonore
aceitou o carinho. Depois disso, ela foi aceita no grupo e se
juntou a todos para comer.
ÉPOCA - Como é o matriarcado animal dos bonobos?
Waal - Nos grupos de bonobos, ao contrário do que ocorre
entre a maioria dos primatas, não existe o chamado macho alfa, o
dominante. As fêmeas mantêm o poder coletivamente. Se houver um
casal numa jaula, o macho é o dominante. Mas, se outra fêmea
entrar no circuito, elas passam a dividir o comando. Entre os
machos também há competição por posição social. Os mais destacados
ganham privilégios sexuais. Mas quem decide o status de cada macho
são as fêmeas. Geralmente, os filhos das macacas bonobos que
dominam o grupo são os que têm mais parceiras. Se a mãe fica
doente ou perde o poder, eles caem também.
'' Os bonobos conhecem todas as posições do Kama Sutra e mais
algumas outras, como os dois parceiros pendurados de cabeça para
baixo. São bissexuais e promíscuos ''
ÉPOCA - Como as fêmeas, que são menores, conseguem essa
dominação sobre os machos?
Waal - Porque os machos bonobos não cooperam entre si, como
ocorre com os chimpanzés e também com os humanos. Nos outros
primatas, os machos estabelecem relações de alianças para
conquistar e manter o poder no grupo.
ÉPOCA - O matriarcado bonobo pode indicar algo sobre nossa
natureza?
Waal - Difícil dizer. Mas provavelmente nossas origens são
de sociedades com dominação masculina. Porque esse é o padrão
entre os primatas. Os bonobos são uma exceção. Sei que algumas
militantes feministas gostariam que fosse diferente. Mas não há
nenhuma evidência de que os ancestrais humanos tenham tido uma
fase de dominação feminina, como os bonobos. Apesar das
semelhanças na proporção corporal entre machos e fêmeas. Entre os
gorilas e orangotangos, as fêmeas têm apenas 50% do tamanho dos
machos. Entre os chimpanzés, elas têm 80% do tamanho deles. Já
entre os bonobos e humanos, a diferença é ainda menor: as fêmeas
têm 85% do tamanho dos machos. Apesar disso, a estrutura familiar
dos humanos não se compara à dos bonobos. Eles são uma sociedade
sexualmente promíscua. Todos os machos e fêmeas podem ter relações
sexuais entre si. Um macho nunca sabe se o filhote é seu, já que
aquela fêmea copulou com vários outros. E essa é a defesa dela
contra qualquer idéia de infanticídio. Já os humanos se estruturam
com famílias nucleares. Seja com monogamia ou poligamia, os machos
estão envolvidos na criação dos filhos.
ÉPOCA - Por que os humanos seguiram esse caminho?
Waal - Ao contrário dos macacos, que permaneceram nas
florestas, nossos ancestrais tiveram de se adaptar ao ambiente
descampado, seco e hostil das savanas. Ali, eles eram presa fácil
para hienas e dez espécies de felinos. As fêmeas com crianças eram
as mais vulneráveis. Nunca se aventurariam para longe das
florestas sem a proteção masculina. Talvez bandos de machos
defendessem o grupo nas emergências. Mas isso nunca funcionaria se
tivéssemos mantido os sistemas sociais dos bonobos ou chimpanzés.
Com um macho dominante, tipo chimpanzé, os outros não cooperariam.
E, com a promiscuidade bonobo, nenhum macho teria grande
compromisso de defender os filhotes. A sociedade precisou mudar.
Não é por acaso que os humanos se apaixonam, sentem ciúme,
vergonha e valorizam a privacidade. A relação íntima entre macho e
fêmea se desenvolveu naquele período de saída das florestas e
ficou gravada em nossos ossos. Acho que isso é o que mais nos
diferencia dos outros macacos.
ÉPOCA - Como nossa família nuclear teria surgido?
Waal - Especula-se que o arranjo surgiu a partir de uma
tendência dos machos de acompanharem as fêmeas que se acasalaram
com eles. Isso para manter os rivais infanticidas a distância. Em
troca, a fêmea ajudaria na coleta de alimentos e na confecção de
instrumentos. E ofereceria sexo para evitar que o macho fugisse
com a primeira fêmea que passasse. O sistema ficou cada vez mais
importante à medida que o macho sabia que os filhotes eram dele. O
resultado disso foi que a população de humanos explodiu, e a das
outras espécies de macacos não. Uma fêmea de chimpanzé tem filhote
a cada seis anos. Entre os bonobos, o intervalo é de quatro anos,
o menor entre os grandes primatas. As fêmeas geralmente têm de
carregar um bebê agarrado no peito e um filhote maior nas costas.
Sem ajuda do macho. Já entre os humanos, a participação masculina
facilita as coisas, desde que ele acredite que os filhos são dele.
Boa parte das restrições morais adotadas por nossa sociedade foi
feita para manter essa ordem familiar.
http://revistaepoca.globo.com/EditoraGlobo/componentes/article/
edg_article_print/1,3916,1091151-1666,00.html? |
|