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Um cachorro abandonado

 
   

Impossível escapar desse olhar infeliz, telepaticamente me disse que esperava a morte, e sem poder evitar, senti minha respiração falhar.

 

Estava encolhido na rua, encostado na parede protetora, sem ninguém, sem comida, sem coleira, sem laços, sem motivos, vivendo sem viver. Enchi uma vasilha de água, e a coloquei um pouco longe dele, ao final, humana desconfiada, tinha medo... Quase sem forças levantou-se, e com muita dificuldade conseguiu chegar até a água, bebeu e voltou ao seu lugar.

 

Mil vontades me invadiram, pegar ele no colo e levar para casa, passar a mão na sua cabeça, mas alguma coisa me deteve. Subi no meu carro, e olhando seus olhos tristes, fui embora, meus próprios olhos cheios de lágrimas, meu coração em pedaços... Sabia que o destino está nas nossas mãos, mas isso não era desculpa para abandoná-lo a sua sorte.

 

Compreendi, de repente, que me via espelhada nele, e chorei...eu também tinha me sentido abandonada,  querendo morrer, eu também tinha vivido sem querer viver, nos piores momentos da minha vida, somente eu e Deus, amigos, família, estavam longe de saber ou sentir ou me proteger de minha autodestruição.

 

O instinto de sobrevivência, meu amor próprio ou a voz de Deus dentro de mim, falou mais alto e aos poucos fui vislumbrando soluções, encontrando dentro de mim forças, vontades, desejos. Aquele cachorro era eu mesma, abandonada, ele devia achar sua força e querer viver. Senti que não tinha feito a minha parte, mas minha intuição falou que eu tinha ouvido esse coração em agonia, e ele sabia.

 

Fiquei sabendo que o cachorro, que tinha sido atropelado, estava melhorando e sendo alimentado. Procurei por ele muitas vezes, mas não consegui achá-lo, ele, como eu, tinha se levantado e impulsionado, talvez, por uma força divina, voltado a vida.

 

 

Autoria: Vivian Raquel Waserman Riss

 
 

 


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