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Quinta-feira, 14 de Setembro de 2006
Fernanda Mathias e Alessandro Perin
A prefeitura de Campo Grande está reforçando as ações para conter
o avanço da leishmaniose, um problema de saúde pública que já
causou seis mortes e atingiu 130 casos este ano na Capital. O
secretário municipal de Saúde, Luiz Henrique Mandetta, diz que não
há motivo para alarde, mas alerta a população de que é preciso ter
postura consciente na guarda de cães (hospedeiros da doença) e na
destinação do lixo.
O mosquito transmissor, o flébótomo, conhecido como palha, se
prolifera no solo e tem nos restos orgânicos ambiente propício
para isso. Diferente do mosquito da dengue, o aedes aegypti, que
pode ser combatido com o fumacê, explica Mandetta, o mosquito
palha vive dentro das casas e tem hábitos noturnos. O combate é
mais trabalhoso, deve ser feito de casa em casa, arrastando
mobília e percorrendo todos os trechos, o que leva de 3 a 4 horas
por unidade habitacional. "É bem mais complexo", afirma.
O secretário ressalta que o número de casos de leishmaniose
aumentou desde 1999 e que se busca um ponto de equilíbrio para
estabilizar a doença. "A cidade passou muito tempo sem ações
voltadas para cães de rua", complementa. A doença, afirma, era
mais comum no campo e foi se urbanizando com o passar dos anos,
por conta dos desmatamentos e desequilíbrio ecológico.
O monitoramento de mosquitos é feito todos os dias, através de 18
armadilhas espalhadas pela cidade. Somente as fêmeas é que picam e
nem todos os mosquitos portam a doença. Os bairros considerados
mais problemáticos em relação à doença são o Zé Pereira, Jardim
Panamá, Santa Emília, São Conrado, Buriti, Bonança e Guanandi.
No Zé Pereira, a manicure Leni Talaveira teve dois cães com a
doença este ano, ambos sacrificados no CCZ (Centro de Controle de
Zoonoses). Os animais ficavam presos no quintal da residência, mas
escapavam. "Depois disso não quis mais criar cachorros em minha
casa, pois tenho duas filhas de 12 e 14 e tenho medo que a doença
contaminasse elas", falou.
Ela conta que na rua onde mora- Elenir Amaral-, praticamente todos
os cães contraíram a doença e foram levados pelo órgão municipal.
Perto da casa de Leni, a dona de casa Cristiane dos Santos Silva,
de 28
anos, contraiu a doença, assim como os dois filhos, de sete e três
anos. Uma das crianças permaneceu 30 dias internada. O cão da
família não estava doente, conforme apontaram os exames do CCZ.
Entretanto, dois animais da vizinhança foram contaminados, sendo
que um deles passou por eutanásia.
"O CCZ deu um prazo de cinco dias para recolher o animal, mas
enquanto isso ele ainda escapa da residência e entra em contato
com as pessoas que andam pela rua", disse sobre o outro cão,
manifestando preocupação com a saúde das crianças.
A casa onde mora não tem muro, facilitando a aproximação do cão
doente. Todos os meses a mãe e as duas crianças vão ao hospital,
passam por exames, procedimento que deve durar em média de um a
dois anos.
Nesta quarta-feira o Hospital Rosa Pedrossian havia cinco pessoas
internadas, em tratamento de leishmaniose, quatro delas crianças e
o outro um idoso de 89 anos. São moradores dos bairros Tijuca,
Santo Amaro, Aero Rancho e de Miranda. No Hospital Universitário
havia um paciente internado e três em tratamento ambulatorial.
Mandetta explica que existem dois tipos de leishmaniose: a
tegumentar e a visceral. Os casos constatados em Campo Grande são
praticamente todos da modalidade visceral, que é intra-abdominal,
portanto mais difícil de ser diagnosticada.
Um dos trabalhos da prefeitura é capacitar médicos para que a
doença seja diagnosticada o mais cedo possível, potencializando o
sucesso do tratamento. A idéia é aumentar o grau de suspeição
entre os médicos. Os sintomas iniciais, como corpo mole, febre e
fadiga, podem ser confundidos com os de outras doenças. Além
disso, a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) pretende ampliar o
efetivo de agentes específicos para ações de combate à
leishmaniose de 160 a 250 pessoas. Os agentes comunitários dão o
pontapé inicial, na conscientização.
Laço afetivo - Um dos fatores que mais dificulta as ações de
prevenção da leishmaniose está relacionado aos cães infectados.
Devido aos laços afetivos das famílias com os animais, muitas
resistem à eutanásia, que é o procedimento recomendado em caso de
infecção. "É preciso trazer um nível de conscientização de que o
direito individual não pode prevalecer sobre o coletivo", afirma
Mandetta.
Isso porque mesmo que o animal receba algum tipo de tratamento
continua sendo hospedeiro da doença. Além disso, afirma, os
medicamentos usados no tratamento da doença hoje disponíveis são
todos voltados para seres humanos e fornecidos com esta finalidade
pelo governo. Mandetta afirma que enfrenta embates com a Sociedade
Protetora dos Animais, diante do alto índice de eutanásias, mas
justifica: "Temos 20% dos cães com leishmaniose e são esses 80%
restantes que devemos proteger".
Além de visitar o veterinário e levar os animais para exame
gratuito no CCZ (Centro de Controle de Zoonoze), outras medidas
que ajudam na prevenção da doença são os cuidados com canis, que
devem estar sempre limpos, destinação adequada do lixo, há também
formas de proteger os animais, com aplicação de repelentes
líquidos ou coleiras. O problema é que essas coleiras costumam ter
preços elevados: cerca de R$ 60,00, cada, observa o secretário.
http://www.campogrande.news.com.br/geral/
view.htm?id=350483&ca_id=9 |
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