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Entrevista com o cardiologista John
Pippin
O americano é membro do Physicians Committee for Responsible
Medicine, grupo de médicos contrários aos experimentos científicos
com animais
Época: O senhor já fez
pesquisas com animais?
John Pippin: Sim. Em 1986 e
1987, trabalhei com cães na Universidade do Texas, dentro do
Southwestern Medical Center.
Época: Como se tornou
contrário aos experimentos com animais?
John Pippin: Analisando a
pesquisa que eu estava fazendo e estudando as pesquisas que outros
fizeram, decidi que aquilo não era certo. Troquei minha pesquisa
por um estudo feito em humanos e desde então nunca mais trabalhei
com animais. Mas minha oposição aos testes de drogas em animais se
desenvolveu algum tempo depois, quando comecei a entender que os
métodos usados para aprovar as drogas não preveniam que elas
fossem perigosas às pessoas. Os testes feitos em animais não
prevêem, de forma razoável, o que vai acontecer quando você der a
mesma droga a uma pessoa. Então por que usar animais? Desde então
tenho tentado promover outros métodos de pesquisas que não usem
bichos.
Época: Por que os testes
são ineficazes?
John Pippin: Vou dar um
exemplo. O LD-50 (lethal dose) um teste usado em animais para
testar drogas e existe há muitos anos. O teste consiste em
intoxicar vários roedores para ver a quantidade necessária de uma
substância para matar metade dos animais de um experimento. O
teste busca determinar qual dose deve ser segura para as pessoas
tomarem. E não funciona. Doses que podem ser perigosas para
animais não fazem mal a humanos, e o contrário acontece também. A
OECD (Organization for Economic Co-operation and Development) uma
organização que reúne 30 países, inclusive os EUA e União
Européia, removeu suas recomendações para o LD-50, dizendo que ele
não era mais necessário. Mesmo assim, muitas empresas ainda
utilizam esse teste em seus remédios. O Botox (toxina botulínica,
usada em tratamentos estéticos), por exemplo, ainda é testado com
LD-50, para verificar se o produto é uma neurotoxina, que
prejudica o sistema nervoso.
Época: É possível ter bons
resultados em testes que não usem bichos?
John Pippin: Há muitos testes
aprovados para analisar os efeitos das drogas na pele, nos olhos.
Nos últimos 20 anos testes feitos em animais têm sido
substituídos, e com o tempo o número de animais usado em pesquisas
médicas caiu tremendamente. Nos anos 70, a estimativa era de que
as pesquisas consumiam 40 milhões de animais. Esse número caiu
para de 20 a 22 milhões. Mas o uso de animais geneticamente
modificados, geralmente camundongos, têm aumentado nos últimos
anos. Os testes com animais têm sido tão ruins em prever os
efeitos das drogas que os pesquisadores estão começando todo um
novo campo de pesquisa em animais, em vez de substituí-las por
outros métodos.
Época: Por que tantos
pesquisadores dizem que os testes animais de remédios são
cruciais?
John Pippin: O argumento deles
é o seguinte: nós sabemos que os testes em animais não são
seguros, mas eles existem há mais de 50 anos e não há testes
melhores. O problema é que o modelo animal tem estado em voga por
tanto tempo que os cientistas estão muito acostumados e poucos
estão dispostos a mudar, a não ser que você mostre a eles que há
métodos melhores. De fato há testes em animais para os quais não
foram desenvolvidas alternativas. Mas, se você tem um método para
identificar drogas, e esse método está falhando, pois só funciona
em 10% dos casos, então por que usá-los? Lembre-se de que não há
tantos pesquisadores preocupados com testes de drogas – são as
companhias farmacêuticas e os médicos que trabalham para elas, da
agência regulatória americana, o FDA, que dizem que os animais são
necessários para os testes de medicamentos. As empresas só se
preocupam em ter seus remédios aprovados.
Época: É possível abolir os
testes em animais hoje? Ou precisamos de testes alternativos mais
confiáveis?
John Pippin: Penso que devemos
eliminar os experimentos com animais e fazer a substituição de
forma bem rápida, desenvolvendo as alternativas que ainda não
existem. Mas isso não vai acontecer, pois agências regulatórias
como o FDA não vão eliminar os testes com animais se não tiverem
algo para colocar no lugar. A solução prática é estabelecer um
compromisso dos governos semelhante ao da União Européia, que
aprovou o banimento dos testes de cosméticos com animais e exigiu
que as indústrias os eliminassem por completo até 2009. No Rio de
Janeiro, os deputados aprovaram um projeto de banimento, o que é
bom. Os governos devem forçar os cientistas a desenvolver boas
alternativas que substituam as pesquisas com animais.
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG74893-5856-427,00.html
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