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NOTÍCIAS DO BRASIL E DO MUNDO

 

Caso Dorothy Stang: a liberdade do fazendeiro

por Rogério Almeida


Ainda sob o alarde da Copa do Mundo de futebol, no dia 29 de junho de 2006, a primeira turma do Superior Tribunal Federal (STF) fez o gol de placa a favor da impunidade que tende aos mandantes de execuções dos que se alinham na luta pela reforma agrária, meio ambiente e direitos humanos na Amazônia. Num placar apertado, 3 x 2, a corte decidiu colocar em liberdade o acusado de mandar executar a missionário Dorothy Stang, em fevereiro de 2005, no Pará, Regivaldo Pereira Galvão, vulgo "Taradão".

O relator, ministro Cezar Peluso, em seu voto, considerou "a prisão preventiva absolutamente ilegal". Seu voto foi acompanhado pelos ministros Sepúlveda Pertence e Marco Aurélio Melo. Votaram contra a concessão os ministros Ricardo Lewandowski e Carlos Ayres Brito. Em desagravo, uma nota da Comissão Pastoral da Terra (CPT), onde a missionária militava, sublinha que tal medida contrariou as decisões de cortes inferiores, onde se avaliou pela manutenção da prisão do acusado. A nota da CPT lembra que o mesmo STF concedeu o benefício da liberdade ao coronel Mário Pantoja e ao major José Maria Oliveira, condenados respectivamente a 228 e 158 anos de reclusão pelo massacre de Eldorado de Carajás.

Tal medida acaba por ratificar o senso comum, em que se salienta que polícia e Justiça só alcançam negros e pobres. As irmãs da congregação de Notre Dame, à qual Dorothy Stang era filiada, quando do julgamento do intermediário entre os fazendeiros e os pistoleiros, Amair Feijoli da Cunha, "Tato", no dia 26 de abril de 2006, haviam se manifestado apreensivas com a possibilidade da liberdade do principal acusado de mediar um consórcio de fazendeiros interessados na execução da religiosa. A inquietação das religiosas residia na possibilidade de fuga do fazendeiro, ou por conta de que o poder econômico e político na região venha a promover intimidação de testemunhas e outras ameaças contra os pares de Stang.

Por falar em impunidade


O Pará ocupa o primeiro lugar no ranking de execuções dos defensores da reforma agrária, meio ambiente e direitos humanos no Brasil. A impunidade beira os 70 por cento, mas ainda assim o governador do Estado festejou a postura do Judiciário estadual sobre os casos que envolvem a disputa pela terra a uma comitiva estrangeira, no corrente mês em Belém. O registro de mais de trinta anos da CPT já soma 774 casos no Pará. No conjunto não há um mandante preso. Ocorre interrogar: que dados o governador Simão Jatene (PSDB) exibiu?

Ao se pontuar a postura do Estado sobre a questão camponesa, dois agentes possuem relevância: liminar de reintegração de posse e tropa de choque. Ainda este mês, doze fazendas devem ser desocupadas no sudeste do Pará. Entre elas a Rio Vermelho, do grupo paulista Quagliato, que não possui título que garanta a posse total da área. Um outro fato emblemático sobre a postura do Judiciário paraense data de setembro de 2004, por conta do mutirão que mobilizou 33 juízes para a expedição de quarenta liminares de reintegração de posse, em que 65% das liminares, 27, tinham como foco o sudeste paraense.

Ano passado, a Vara Agrária de Marabá, município da mesma região, principal foco de mortes de trabalhadores rurais, numa única canetada expediu cinqüenta liminares. Não raro ocorre que muitas dessas áreas já foram consideradas como improdutivas por técnicos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), ou mesmo registram crimes ambientais e manutenção de trabalhadores em condição análogas à escravidão.

Na contramão, não se tem notícia de mutirão para sanar os crimes impunes contra advogados, trabalhadores rurais, sindicalistas, religiosos empenhados na reforma agrária. Por essas e outras que os setores populares estão empenhados para que crimes, como o caso Stang, sejam federalizados.

A celeridade com que o caso da execução da missionária Dorothy Stang foi tratado pelo Judiciário do Pará é uma exceção. A via-crúcis durou menos de um ano, quando a regra ultrapassa uma década, isso nos casos em que se instala o inquérito policial. Outro elemento é que todo o segundo escalão envolvido no caso foi julgado e condenado.

Isso não implica a alteração no cenário da disputa por terras e recursos naturais nas quebradas amazônicas. Os que moram na região onde a missionária foi morta contam que tudo continua como antes: saque de madeiras, ameaças e grilagens. A gula do agronegócio segue a devorar florestas no município de Santarém. A névoa da impunidade permanecerá sobre o nosso céu amazônico?

Rogério Almeida é colaborador da rede www.forumcarajas.org.br

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