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18.12.2005
Entre julho e novembro de 2005, uma equipe do Greenpeace, uma
organização internacional de defesa do meio-ambiente, esteve
diversas vezes na Região Nordeste do estado de Rondônia para
investigar o comércio ilegal de madeira. Eles apresentaram-se como
compradores interessados em adquirir madeira.
A última negociação aconteceu há duas semanas. E foi acompanhada
de perto por uma equipe de reportagem do Fantástico. Tudo foi
gravado com câmeras escondidas.
O caminho da madeira
Há muito tempo que o som das motosserras substituiu o das matas.
Uma imagem de satélite dá uma dimensão da destruição da floresta.
De avião, a imagem também é chocante.
Nos últimos 30 anos, a Amazônia perdeu uma área do tamanho da
França em cobertura florestal. Em uma região tão grande, a
fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis (Ibama) - órgão federal que deveria
controlar a extração e comércio de madeira - é insuficiente.
E pior: o Greenpeace descobriu que documentos oficiais do Ibama
estão sendo forjados para legalizar o corte clandestino de árvores
da Amazônia. O documento é uma guia chamada Autorização para
Transporte de Produto Florestal (ATPF). Ele é uma espécie de
carteira de identidade da árvore, emitido pelo Ibama, destinado a
transportar madeiras extraídas legalmente de áreas autorizadas.
Só que o controle destas guias é muito falho, e por isso existe um
grande mercado negro.
Primeira fase: Guia
Foi feito contato com Sérgio Krammer, um gaúcho que possui uma
serraria na principal cidade da região, Ariquemes. Logo na
primeira conversa, em uma churrascaria de um posto de gasolina,
ele abre o jogo:
Sérgio Krammer: O problema não é a madeira em si, é a
documentação dela.
Greenpeace: Essa guia que você consegue é de outra área
aonde está autorizado o desmate?
Sérgio Krammer :É sim. É que é autorizado transportar.
Greenpeace: É fácill, né? Você diz que a madeira é daqui,
mas ela é dali. A polícia rodoviária não pára?
Sérgio Krammer: Pára
Greenpeace: Tem que pagar caixinha?
Sérgio Krammer: Não é muita coisa, não. Mas dependendo da
hora, sim Já me pegaram com uma carga de madeira sem nota e não
teve acordo. Só que depois que eu fui parar na delegacia, e lá
teve acordo.
Greenpeace: Custou quanto isso?
Sérgio Krammer: R$ 3 mil.
O pagamento pela guia é feito fora do restaurante. Sérgio Krammer
recebe R$ 6,2 mil, e promete entregar o documento em cinco dias.
Perto de Ariquemes ficam três cidades sustentadas pela extração de
madeira: São Cujubim, Machadinho D´Oeste e Colniza, já no estado
do Mato Grosso.
O caminho de terra que liga Cujubim a Machadinho é uma espécie de
museu a céu aberto da destruição da Amazônia. Áreas devastadas
recentemente ainda estão queimando. Toras ficam na beira da
estrada esperando um caminhão para serem transportadas. À noite, a
fiscalização diminui, e o trânsito de caminhões aumenta.
- Vocês não são do Ibama não, né?
- Não, estamos fazendo um documentário.
- Ah, ta. Porque esses o pessoal estava filmando eram do Ibama e
“ferrou nós tudinho”.
- Por que eles filmaram vocês?
- Não sei. Porque tava ilegal, não pode mais trabalhar com tora.
O crime ambiental é admitido com naturalidade.
- Se pegar acontece o que com vocês?
- Se pegar vai direto para a delegacia. Lá, vai ter que pagar um
monte de coisa.
- E você não tem documentação nenhuma?
- Dessa aqui, nada, nenhum papel. Entendeu?
Tudo é clandestino. Até mesmo os caminhões. Um deles, por exemplo,
não tem nem placas. O Fantástico acompanhou, à distância, um
caminhão até uma serraria perto da floresta.
Um grupo de homens descarrega rapidamente as toras. Durante a
madrugada, a árvore vira tábua. Derrubar uma árvore é rápido. Na
beira da estrada, os “toreiros” se preparam. Daqui a pouco eles
vão cometer um crime ambiental.
Greenpeace: Isso (uma árvore) tem o que, uns cem anos?
Toreiro: Deve ter mais. Isso não é rápido não, demora.
Greenpeace: Você corta árvores há quanto tempo?
Toreiro: Desde os 17 anos. Tenho 30.
Sem papelada, sem autorização, sem burocracia: 100% ilegal. Em
três minutos, uma árvore da espécie angelim, de quase 17 metros de
altura, e com 80 centímetros de diâmetro, vai ao chão. O enorme
tronco é cortado em partes.
Greenpeace: Você derruba quantas por dia?
Toreiro: Só pra derrubar? Uma vez eu derrubei 32 árvores.
Greenpeace: – Em um dia você derrubou 32 árvores?
Toreiro: Grossa, fina.
O trator, que fica escondido no meio da mata para escapar da
fiscalização, puxa os troncos para a beira da estrada. Eles vão
ficar aí até a chegada do caminhão.
Segunda fase: Madeira
Para comprar a madeira, os ativistas do Greenpeace e a equipe do
Fantástico visitaram várias madeireiras. E ouviram inúmeros
relatos de irregularidades e corrupção.
- Se você não der tanto por carga você não passa...
- Para a Prefeitura?
- É, de Colniza.
- Quanto vocês tinham que dar para eles?
- Aí é por carga.
- Quanto?
- Se for angelim, é R$ 100. Ipê, aí cresce. Hoje, pra sair com
carguinha com quatro, cinco toras boas, vai estar saindo R$ 300.
Em Machadinho, a equipe encontra Vandinho. É o homem que vai
vender a madeira ilegal. São compradas 30 toneladas de angelim,
madeira usada na construção civil.
Tudo é negociado sem documento, sem nota fiscal, sem nenhuma
assinatura. No dia seguinte, o caminhão já está pronto para
transportar as toras.
Menos de uma semana depois de chegar na região, a equipe do
Greenpeace, acompanhada pelo Fantástico, tinha comprado uma
carreta com 13 toras de madeira, totalmente ilegais. O "V" de
Vandinho está lá, em cada uma das toras.
Com a entrega da mercadoria, só falta o pagamento.
Greenpeace: Aí tem R$ 4 mil, né?
Negociador: Quando deu lá?
Greenpeace: Deu R$ 4680
Negociador: R$ 4600, vou quebrar o galho!
Com um aperto de mão o negócio está fechado.
Terceira fase: serragem
Antes de levar a madeira para São Paulo, as toras precisam ser
cortadas em pranchas. Vandinho transporta as toras para o pátio da
serraria do Seu Elias, em Cujubim. Lá, tudo gira em torno da
madeira.
Em outra serraria da cidade, o pátio está lotado com 18 mil metros
cúbicos de toras, o equivalente a 5 mil árvores, ou uma pequena
floresta. A serragem da madeira leva um dia inteiro. Em nenhum
momento Seu Elias pergunta se a madeira tem documentos.
Já em tábua, se torna virtualmente impossível saber a origem da
madeira. As provas do crime desaparecem.
Quarta fase: Transporte
Agora só falta o transporte. O caminhão pega a madeira na
serraria. Nos 130 quilômetros até Ariquemes, o caminhão não tem
qualquer documento.
Se for pego pelo Ibama ou pela Polícia Federal, a carga será
apreendida e o motorista, preso. Mas quem conhece as estradas da
região sabe que o risco é pequeno. E muitos se arriscam.
No mesmo posto do primeiro encontro, Sérgio, o traficante das
guias, entrega os documentos.
Greenpeace: Você acha que não vai problema com essa guia?
Se passar numa fiscalização. A alíquota não é diferente? Eles
checam isso?
Sérgio: É lógico que não
E confirma quem é o dono original da guia.
Greenpeace: o dono desta guia é o Castelhano?
Sérgio: É sim
Greenpeace: - Esse castelhano é ok?
Sérgio: Ele é 100%.
O Castelhano a que Sérgio se refere é Novel Castilho Bustamante,
dono de uma madeireira.
“Foi uma venda que fizemos normal e tranqüilo. Correspondeu a uma
venda que fizemos de madeira. Uma ATPF realmente nossa”, afirma
Castilho.
Castilho não sabia que tudo havia sido gravado. “Você não pode
provar nada”, afirma ele. E que a madeira tinha sido comprada a
mais de cem quilômetros de sua empresa, e transportada usando
ilegalmente a sua guia. “Não sei como isso pode ter acontecido”,
disfarça.
O Ibama reconhece que casos como esse são comuns na região.
“A gente sabe que acontece, mas o que ocorre são muito poucas
denúncias por parte da população ou dos envolvidos, até porque
eles estão praticando um crime, vendendo a ATPF”, conta Evandro
Hagelman, do Ibama/ Ariquemes – RO.
Mas sem estrutura, pouco pode fazer.
“O número de funcionários é muito baixo em relação ao que seria
necessário para toda a região. Essa região corresponde a
praticamente metade das emissões de ATPFs do estado de Rondônia”,
explica Evandro.
De volta ao caminhão, o motorista recebe a guia. E começa a longa
viagem até São Paulo.
A carreta com madeira ilegal percorreu mais de 3 mil quilômetros
de rodovias federais e estaduais, passou por três fronteiras e
dois postos de fiscalização. Com os documentos adquiridos
ilegalmente, o caminhoneiro não foi incomodado, e chegou a São
Paulo no dia 6 de dezembro.
“Nós vamos encaminhar essa denúncia às autoridades federais
competentes: Ministério Público e Polícia Federal. E a gente
espera que essas informações sejam apuradas e processadas”,
afirmou Rebeca Lerer, do Greenpeace.
Para comprar madeira, papéis e transportar a carga até São Paulo,
o Greenpeace pagou pouco mais de R$ 20 mil. Na Rua do Gasômetro,
centro madeireiro de São Paulo, a mesma madeira comprada em
Rondônia é vendida com um lucro considerável.
- Quando dá aí?
- R$ 63.822,50.
Adivinhe de onde vem a madeira vendida em São Paulo?
- A serraria nossa é em Ariquemes. Temos bastante madeira em pátio
lá.
Mas as irregularidades não terminaram. O gerente da loja ainda faz
uma oferta.
Gerente: Você vai tirar nota disso aí?
Sem nota fiscal o preço cai.
Gerente: Posso chegar até 15% de desconto. Vai pra R$
54.200,00.
“Nosso objetivo é que essas falhas do sistema, que possibilitam a
‘lavagem’ de madeira, fiquem muito claras para a população e para
o governo, e que sejam feitas as correções necessárias para
impedir esse tipo de fraude no futuro”, finaliza Rebeca.
Esquemas de corte e transporte de madeira ilegal como este
mostrado pelo Fantástico são repetidos todos os dias, com pequenas
variações, por toda a região amazônica. Só que normalmente a
floresta é destruída em silêncio, sem ninguém se importar.
Encontre essa reportagem em:
http://fantastico.globo.com/Jornalismo/Fantastico/0,,AA1092863-4005,00.html |
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