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Robson Fernando
AVISO: Este artigo pode conter
spoilers sobre Quake 2 e 4. Se você não quer saber o que vai
enfrentar caso queira jogá-los, leia este artigo só depois que
chegar em determinadas partes da ação.
(Strogg: raça de semi-cyborgs alienígenas
inimigos dos humanos, nos jogos Quake 2 e Quake 4. Habitam o planeta
Stroggos e seus processos de manipulação de prisioneiros terráqueos
são de extrema crueldade, incluindo processamento de corpos
esquartejados e conversão em cyborgs orgânicos com amputação de
pernas e injeção de controles cerebrais. Só conhecendo esses jogos
mesmo para ter noção de tudo de que eles são capazes.)
Convido todo aquele que sabe quem são os Strogg (acima um pequeno
explicativo) a pensar em como nós nos equiparamos a eles quando o
assunto é nossa relação com o restante do Reino Animal. Se ligarmos
os pontos corretamente, perceberemos que somos tão cruéis como esses
extraterrestres que controlam, mutilam, torturam ou esquartejam seus
prisioneiros. Porque, afinal, também controlamos suas vidas, os
mutilamos, promovemos tortura e esquartejamos seus corpos depois de
tudo. Só não instalamos ainda membros cibernéticos nem bebemos
corpos moídos em liquidificador. Por enquanto.
Nosso sistema equivalente ao planeta Stroggos é composto de centros
de pesquisa científica mais as fazendas, granjas e matadouros onde
condenamos de milhões a bilhões de animais a vidas miseráveis e
breves. Abaixo eu faço uma comparação que, em última análise, dá a
idéia de que a idealização da raça Strogg e seus feitos diabólicos
pode ter sido inspirada no lado brutal e antiético da própria
humanidade.
EXPERIÊNCIAS CIENTÍFICAS: Tanto os Strogg quanto os humanos
reais promovem experimentações muito cruéis em seus laboratórios,
como eletrocução, mutilação, testes de mortalidade, cirurgias sem
anestesia e estresse ambiental. A única diferença é que os
alienígenas estudam os corpos humanos para fazê-los se tornarem
cyborgs orgânicos, e nós apenas procuramos soluções para nossas
doenças e distúrbios.
TORTURAS: Tanto a raça ET como a humana promovem dolorosas
torturas nos seres estudados, como os já citados choques e operações
invasivas sem anestesia.
MUTILAÇÃO: Fazendas e granjas humanas mutilam dos animais os
chifres, a cauda (de ovinos e caprinos), parte do bico (de
pintinhos), dentes (de porcos) e testículos (de animais de porte
médio, como bodes). Mesmo que sejam partes periféricas, ao contrário
dos Strogg que mutilam pernas e braços, nunca deixa de ser algo
bastante cruento.
INSANIDADE: Animais presos em gaiolas, cochos de criação
intensiva e granjas lotadas não raramente apresentam comportamentos
estranhos e fora de sanidade, como andar em círculos, autoflagelação,
cacoetes e até insanidade mental consolidada, igual aos humanos
prisioneiros das instalações Strogg.
GRITOS E APELOS DAS VÍTIMAS: Em Quake 2, algo muito ouvido
são gritos de dor ou clamores como “Let me out!” (algo como “me tire
daqui!”) ou “It hurts!” (“isso dói!”). Os equivalentes terráqueos
são os gritos dos animais a serem mortos, como mugidos dos bois e
guinchadas dos porcos. Nenhuma das duas raças algozes manifesta
piedade de tais demonstrações de sofrimento.
ESQUARTEJAMENTO: Também em Quake 2 vemos alguns lugares onde
membros de humanos esquartejados são levados por tubos e despejados
em fossas. Pedaços de corpos orgânicos são transportados para o
processamento do fluido “stroyant”, o qual serve como combustível
para os cyborgs. Do quase mesmo jeito, os humanos reais se alimentam
de animais retalhados. Só não há ainda o consumo humano de corpos
liquidificados... ou já há, em forma de patês!
TECNOLOGIA BÉLICA: Parece não se encaixar no tema animal, mas
é de se relevar que ambas as raças investem maciçamente em máquinas
militares, não importando em nada o sofrimento de quem será atacado.
Aliás, seria George W. Bush a versão humana do Makron, o líder
Strogg?
DESTRUIÇÃO AMBIENTAL: Tanto os Strogg como os humanos
promoveram severa devastação no ambiente onde vivem, causando a
extinção de grande parte das espécies animais e vegetais de seus
planetas graças à poluição e à destruição de ecossistemas.
Só é possível ter a idéia de toda a frieza e brutalidade da raça
Strogg se jogarmos Quake 2 e 4. Mas a da raça humana pode ser vista
em quase todos os lugares da Terra. Não somos menos piores que eles
quando o assunto é relação com outras espécies animais, tanto que às
vezes tem-se a impressão de que essa raça cyborg alienígena foi
inspirada em ninguém menos que nós mesmos, de uma espécie dotada de
inteligência sofisticada mas que não consegue usá-la para erradicar
seu lado bruto e sanguinário.
Robson Fernando
Estudante e articulista amador, é dono do blog Consciência
Efervescente
http://conscienciaefervescente.blogspot.com. Entre em contato
por robfbms@hotmail.com
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