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Robson Fernando
Vaquejada, para quem ainda pouco ou nunca ouviu falar disso, é um
pseudo-esporte de abuso animal tipicamente brasileiro/nordestino, ao
contrário do rodeio, que veio dos Estados Unidos. Todos os detalhes
dessa atividade exploratória e ignorantemente sádica estão no guia
explicativo abaixo, o qual diz tudo o que você precisa saber sobre
ela.
ÍNDICE
CONCEITO
Conseqüências freqüentes nas
vítimas (boi)
Detalhes adicionais
Exploração e agressão
Vaquejada e especismo
O pretexto da cultura e tradição
Conclusão
Fontes de referência
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CONCEITO
- A vaquejada consiste em um vaqueiro competidor e outro auxiliar
correrem a cavalo atrás de um boi para o competidor puxar a cauda
deste e o boi cair levantando as quatro patas dentro da linha de
limite estabelecida na arena.
- Para que o boi, como sendo um animal dócil e vagaroso, comece a
correr em fuga na arena, são necessários métodos que lhe causem
desespero e medo de predação iminente. Entre esses métodos, um
exemplo é o encurralamento. Aplicações de socos e chutes nos bois já
foram noticiadas por defensores dos animais.
- Os cavalos também costumam sofrer perturbações de agitação
comportamental e escoriações: são fustigados com chibatas de couro e
incitados a correr mediante golpes de esporas fixas nas botas do
vaqueiro.
***
CONSEQUÊNCIAS FREQUENTES NAS VÍTIMAS (BOIS)
Essas conseqüências não são vistas ou flagradas em todos os eventos,
mas costumam acontecer com notável freqüência.
- Fraturas nos ossos traseiros que sustentam a cauda
- Lesões sérias na medula espinhal, com casos não-raros de
comprometimento de seu funcionamento nervoso
- Casos não muito raros de mutilação da cauda devido à força do
puxão pelo vaqueiro
- Lesões e luxações em vértebras
- Traumatismos em partes diversas do corpo, especialmente nas patas
- Lesões em órgãos internos
- Fraturas nas patas quando do momento da queda
***
DETALHES ADICIONAIS
- Foram relatados muitos casos em que os chifres das vítimas são
serrados com serrotes de marceneiro e sem anestesia, causando
sangramento nos chifres cujas pontas foram arrancadas.
- Casos de má alimentação são relatados com freqüência. Alguns casos
parecem propositais para deixarem as vítimas menos pesadas e mais
fáceis de serem derrubadas, apesar de algumas vaquejadas de grande
porte não aprovarem essa prática.
- O julgamento de avaliação do desempenho dos vaqueiros costuma ser
feito com o boi em pé, mas os próprios organizadores de vaquejadas
admitem que muitos animais ficam incapacitados de se levantar para
esse julgamento.
- Em muitas competições, o animal vitimado ainda é um novilho, um
bovino “adolescente” que ainda não tem o porte forçudo do boi
adulto.
***
EXPLORAÇÃO E AGRESSÃO
O uso de animais, incluindo sua perseguição e judiação, como
instrumentos de entretenimento caracterizam exploração animal.
A perseguição do boi e o puxão da sua cauda caracterizam agressão,
da mesma forma que puxar com força e agressividade cabelos de uma
pessoa. Caso humanos tivessem cauda, o hábito de puxá-la com
intenção maldosa para derrubar a pessoa no chão caracterizaria
agressão ou mesmo lesão corporal.
***
VAQUEJADA E ESPECISMO
É importante expor primeiro o que é especismo, termo ainda
desconhecido da maioria das pessoas: é o ato de o ser humano arrogar
para si o atributo de superior às demais espécies de animais e,
aproveitando-se disso, negar aos outros animais o direito à vida, à
liberdade, à dignidade e ao bem-estar e explorá-los a seu bel
prazer, muitas vezes com requintes de maldade, crueldade e aparente
sadismo.
O especismo não é quase nada diferente do racismo, da xenofobia e da
homofobia. A única diferença é que, enquanto nesses três casos quem
tem seus direitos naturais e jurídicos negados pelo lado agressor
são humanos respectivamente com fenótipos “raciais”, nacionalidade
ou orientação sexual diferentes dos agressores, no especismo as
vítimas são os animais não-humanos castigados e explorados,
“punidos” pelo “crime” de não terem nascido humanos.
Também caracteriza especismo a acepção e segregação de espécies por
preferência carismática dos humanos. Por exemplo, é especista a
pessoa que estima, ama e defende cães e gatos enquanto mata, come ou
explora bois e galináceos.
Caracteriza especismo infligir aos animais não-humanos atos que
seriam considerados abomináveis caso fossem infligidos em humanos.
Alguns exemplos de atos especistas, todos recheados de crueldade:
- Utilizar animais como fontes de matérias-primas e produtos
alimentícios. Isso não soa abominável para os especistas, é até
considerado supernormal e corriqueiro, mas estes abominariam o caso
de serem utilizados humanos para se obter carne, leite (em caráter
industrial não-maternal), pele e gordura de seus corpos, por
exemplo;
- Utilizar animais em atividades de tração e força física com a
imposição de dominação e açoites ao animal. Os especistas de hoje
considerariam a tração humana escrava usada para mover carruagens e
liteiras tal como era feito em épocas antigas remotas uma
abominação;
- Usar animais como instrumentos provedores de entretenimento e
pseudoesporte. Nenhum especista gostaria de ver “espetáculos” em
que, por exemplo, homens sob tortura disputassem quem resistiria por
mais tempo a agressões lancinantes, ou homens a cavalo disputassem
quem puxaria o cabelo de uma mulher em fuga numa arena para
derrubá-la no chão. Também nenhum especista dos dias de hoje
admitiria “espetáculos” de “domação” de humanos de tribos primitivas
subjugadas e capturadas;
- Impor e infligir a animais testes científicos primários de
produtos como cosméticos ou medicamentos. Especistas normalmente só
convocam humanos para testes quando o produto já está em versão
beta, considerada segura, depois de versões alfa já terem ferido,
cegado, queimado ou causado outros problemas graves em animais
não-humanos nos testes.
- Aprisionar, em cárcere ou cativeiro, animais para fins de
estimação, como pássaros, camundongos e peixes “ornamentais”. Nenhum
especista admitiria aprisionar humanos escravos para estes lhe
garantirem “estimação” e “afeto”, mas acharia totalmente normal
aprisionar aves e peixes com o mesmo intuito.
- Vender animais para fins de estimação, ainda que sejam espécies
carismáticas como cães e gatos, ou “utilitárias”, como o caso de
cavalos e bois. Os especistas abominam e criminalizam o tráfico de
seres humanos, mas consideram muito normal o de animais não-humanos.
Não caracteriza especismo, no entanto, matar vermes e
microorganismos patológicos, ainda que pertencentes ao reino animal,
por questão de sobrevivência e erradicação de doenças.
Também não é especista o ato de abater por legítima defesa uma fera
que atacasse a pessoa sem que houvesse possibilidades de ambos os
lados permanecerem vivos após a tentativa de predação, uma vez que
não caracteriza exploração de animais indefesos.
Também não caracteriza especismo cuidar de animais domésticos, tais
como cães e gatos, desde que os objetivos fundamentais desta tutela
tenham sido, interdependentemente, libertá-los do abandono, do
cárcere ou da iminência de morrer em um centro de controle de
zoonoses, em vez de direcionar suas vidas ao fim estrito da servidão
afetiva, e lhes sejam garantidos liberdade, dignidade e bem-estar
acompanhados de legítimo amor.
Agora a pergunta: por que vaquejada também é especismo?
Vaquejada consiste em explorar os bois, mediante o infligir de medo
e desespero nesses animais, para o entretenimento dos vaqueiros
competidores e do público apreciador.
Vaqueiros, organizadores de vaquejadas e o público apreciador do
evento arrogam para si a superioridade ante os bois e, com esse
atributo forjado, sentem-se no poder de explorá-los e judiá-los.
Os cavalos também são explorados, são vistos apenas como
instrumentos que integram a vaquejada, como coisas passíveis de
compra e venda, mercadorias. Costumam ser traficados como, por
exemplo, “cavalos ótimos para vaquejadas”. Têm sua vida e dignidade
reduzidas a atributos de um carro de alta velocidade. Com o
agravante de serem esporados pelos vaqueiros que querem mantê-los
rápidos.
Bois são tratados como brinquedos de derrubar, como joões-bobos.
Cavalos são tratados como carros de alta velocidade. Não são vistos
como seres vivos dotados de sentimentos, como animais merecedores de
dignidade, mas como objetos “esportivos”, como instrumentos de
competição.
Seres humanos jamais seriam tratados do mesmo jeito por esses
especistas. Eles alegam pertencer a uma sociedade que evoluiu, mas
não consideram que a exploração dos animais, com aqueles mesmíssimos
métodos e coisificações de que os exploradores antigamente lançavam
mão em prol do abuso de humanos escravizados antigamente, é um
atraso, uma chaga anacrônica na ética de seu povo, um ato bárbaro e
covarde que também deveria ser rebaixado ao escaninho de barbáries
do passado a que pertencem a escravidão e as bênçãos religiosas à
guerra.
E outro motivo é percebido quando comparamos os bois vítimas com
humanos perseguidos numa competição de igual sadismo. Os especistas
jamais tolerariam a existência de uma competição, mesmo sendo
considerada “cultura” ou “tradição”, em que homens a cavalo, em
competição um contra o outro, perseguissem um escravo de cabelos
longos em desesperada fuga para o melhor competidor puxar o cabelo
do escravo e arrastá-lo ou derrubá-lo no chão a uma velocidade de no
mínimo 15 quilômetros por hora.
***
O PRETEXTO DA CULTURA
E TRADIÇÃO
A vaquejada é considerada pelos vaqueiros, pelos organizadores de
vaquejadas e pelos apreciadores do “esporte” um evento que preza
pela cultura interiorana nordestina e pela tradição dos vaqueiros da
região.
No entanto, se formos ver o passado, a história da humanidade,
veremos que inúmeros atos que hoje são considerados cruéis e
abomináveis eram considerados em normais e prezados na cultura e
tradição em sua época. Três exemplos internacionais podem ser
citados:
- A própria ESCRAVIDÃO era normal e fazia parte da cultura de quase
todas as civilizações urbanas e rurais do mundo antigo. Até a
segunda metade do século 19, a escravidão dos negros era algo
corriqueiro e totalmente tradicional para o povo. As feiras de
tráfico de escravos, então, eram lugares de renovação e perpetuação
dessa cultura. Ai que quem vier nos dias de hoje defendendo a
legalização da escravidão de negros como “retomada das tradições
clássicas do povo brasileiro”. Simplesmente estaria em sérios apuros
com a polícia e até mesmo com os detentos do presídio para onde
seria encaminhado.
- Os SACRIFÍCIOS HUMANOS eram algo ainda mais que cultural e
tradicional: eram sagrados. Jovens, de adolescentes virgens até
mesmo crianças e bebês, eram esfaqueados em altares para que seu
sangue descesse o altar e “nutrisse a terra”. Muitos tinham seu
coração arrancado ainda batendo. E ninguém nem sonhava com anestesia
na época! Para os povos que praticavam esses sacrifícios, o sangue
alimentava os deuses ou então o sol, neste caso para que o astro
continuasse brilhando perpetuamente. Ai daqueles que aparecessem na
frente do templo protestando contra esses atos, dizendo que era
crueldade. Quem fizesse isso seria executado por blasfêmia e ofensa
aos deuses! Hoje nem precisamos dizer como seriam vistas cerimônias
de sacrifício humano. A polícia levaria todo mundo em cana por
homicídio qualificado.
- O costume de ELIMINAR A VIDA DE BEBÊS DEFICIENTES também era uma
tradição corriqueira em muitos povos da Antiguidade. Eliminava a
“massa onerosa” do povo; ninguém, nenhum Estado, queria sustentar
uma nação com várias pessoas deficientes, inabilitadas para o
trabalho braçal que sustentava os pilares de seu povo. Hoje, ninguém
de sã consciência desejaria entregar seu filho com paralisia
cerebral ou com mutilação congênita para alguém matar.
- Existia em Esparta, na Grécia Antiga, um sistema chamado CRÍPTIA
ou CRIPTÉIA: soldados adolescentes, para serem promovidos a
guerreiros adultos, eram submetidos ao fardo de perseguir e matar o
máximo possível de escravos soltos, chamados hilotas, na cidade. O
fato de matar os escravos era visto como o comprovante de que os
adolescentes estavam aptos para aderirem ao nobre exército
espartano. Isso era visto, imagine... como cultura e tradição.
- Já na Índia clássica, existia, e ainda hoje faz-se ilegalmente
vigente, a segregação oficial da população em CASTAS. Os monges
bramanistas, os filósofos e os professores ocupavam a mais alta
casta (chamada Brahmin). Nas castas abaixo da Brahmin, estavam em
ordem decrescente os governantes, os militares, os comerciantes, os
fazendeiros, os artesãos, os operários e finalmente os camponeses.
Abaixo da estratificação de castas, existiam os párias, ou
intocáveis, que eram discriminados, segregados e excluídos pelo povo
de uma forma quase “racista”. Essa segregação era parte da cultura
indiana. Era uma tradição milenar. Ainda hoje, muitos indianos ainda
discriminam e segregam as pessoas da subcasta pária. Tudo escrito na
bandeira da cultura e da tradição.
Como se vê nos cinco exemplos acima, cultura e tradição nem sempre
são algo bom e admirável. Nesses pontos, coisas inofensivas como
carnaval e futebol estão no mesmo patamar de cultura e tradição que
sacrifícios humanos e segregação social por castas. A diferença é
que os dois primeiros são por definição inofensivos e admiráveis, e
os dois últimos são vistos hoje como ruins e abomináveis. Mas todos
são culturas e tradições.
Com isso tudo, chega-se à pergunta: será que devemos preservar as
coisas, por piores e mais abomináveis que sejam, só porque elas são
“cultura e tradição”?
Será que nossa sociedade tem que respeitar a vaquejada, mesmo ela,
por definição, sendo cheia de crueldade e exploração, só porque é
algo da “cultura e tradição” nordestina?
***
CONCLUSÃO
Vaquejada é uma atividade cruel, exploradora, agressora, especista
e, por isso tudo, abominável. Não é justo continuarmos preservando e
deixando apreciar-se o ato de se maltratar e agredir bois só porque
ele tem a bandeira da “cultura e tradição”. Muitas “culturas e
tradições” que representavam discriminação, exploração, ferimentos e
mortes foram abandonadas ao longo da História e hoje são vistas como
perversas e repulsivas. Por tudo o que foi constatado, a vaquejada
também deveria estar nessas “tradições” abandonadas. É baseado nisso
que nós precisamos lutar com todas as nossas forças para que essa
atividade pseudo-esportiva seja ilegalizada, criminalizada,
combatida e banida do Nordeste, do Brasil e do mundo. Assim como a
escravidão e os sacrifícios humanos foram jogados na cova dos erros
da humanidade cujas lições de não mais repeti-los foram quase
totalmente aprendidas.
***
FONTES DE REFERÊNCIA:
http://www.alpa.org.br/artigovaquejada.htm
http://www.vaquejadas.com/regras/
http://www.vaquejada.com.br/acessorios/
http://www.nucleouniversitario.com.br/vaquejada.html
http://www.mp.ba.gov.br/noticias/2007/jun_14_vaquejada.asp
http://www.mp.ba.gov.br/atuacao/ceama/noticias/2007/jun_05_acao.pdf
http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=10659
http://en.wikipedia.org/wiki/Human_sacrifice
http://www.portadeacesso.com/escritores/amauri/tratado_da_familia.doc
http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/files/SURDEZJC.doc
http://en.wikipedia.org/wiki/Krypteia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Castas
Robson Fernando
http://rob-artigos.notlong.com
Robson é
estudante e professor particular de redação. Nascido em 1987 no
Recife, escreve artigos com tema livre, por inspiração e hobby. É
vegetariano, amante dos animais e ateu. Entre em contato pelo e-mail
robfbms@hotmail.com
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