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Robson Fernando
O vegano tem como definição básica “aquele que, além de ser
vegetariano completo, não veste peles e tecidos animais como couro e
seda, evita consumir qualquer produto que possua algum ingrediente
de origem animal e boicota empresas que testam seus produtos em
animais”. Vê-se no dever de, em todas as suas compras, vasculhar a
lista de ingredientes de cada produto para ver se não há nenhum
ingrediente vindo da exploração de bichos pecuarizados e procurar
itens apenas de empresas que não fazem tais testes consistidos na
crueldade. São, no entanto, tarefas nada fáceis no Brasil, uma vez
que raramente os produtos ideais são facilmente identificáveis pela
vista na prateleira. A dificuldade mais pesada é averiguar se tal
marca testa ou não de forma exploratória, mais ainda do que atestar
a ausência dos ingredientes veganamente proibidos, havendo a
necessidade de se levar em mãos uma lista de empresas que testam e
que não testam em animais – com o agravante de que as listas
disponíveis na internet não englobam todo o universo de empresas
fabricantes, faltando muitas delas.
Outro desejo dessa classe de defensores animais é que a população
adquira generalizadamente o conhecimento dos procedimentos cruéis
que flagelam muitos bichos e ainda se fazem necessários para se
atestar a não-nocividade de muitos itens industrializados. Mas vê-se
que esse objetivo ainda está andando a passos muito lentos no país
com a divulgação apenas em sites e blogs de defesa animal que o povo
alienado não se interessa em ler.
É nessas horas que vem à mente a idealização do selo normativo de
“produto não testado em animais” e se pensa: “Que baita mão na roda
seria esse selo!”, ou “Esse selo seria tão bom para as pessoas
aprenderem o que se faz nos laboratórios industriais que exploram
animais...”. Vistas essas duas necessidades, tenho o prazer de
relevá-las em caráter mais detalhado para quem quer saber melhor as
implicações da adoção dessa estampa, tendo eu também o objetivo de
divulgar publicamente os benefícios que serão adquiridos com ela.
Antes de explicá-los, vale constatar que o selo já estampa, por
norma técnica oficial, os produtos livres de crueldade em muitos
países da Europa. Tem formato quadrado e contém o pictograma de um
cachorrinho acalentado por uma mão humana, simbolizando que a
fabricação do produto respeita os bichos que, em outra situação,
poderiam ser cruelmente feridos ou até mortos nos testes. Já por
aqui, em contrapartida, apenas algumas empresas intituladas como
amigas do veganismo adotam algum sinal certificando que seus
procedimentos não exploram animais, como o dizer “produto não
testado em animais”. Infelizmente elas são muito poucas, o que
dificulta a vida do consumidor ético e inibe a escancaração da
realidade dos biotérios industriais para a população.
Tendo em vista essa realidade, um selo brasileiro sinalizando itens
livres de testes cruéis normalizado pela ABNT será a realização
desses desejos dos veganos, e trará inestimáveis benesses não só
para os mesmos como para outras pessoas e entidades:
1. Os animais sairão ganhando muito, com a propagação generalizada
da consciência de que testar neles é errado. a) A questão dos testes
exploratórios será exposta à população com muito mais força do que
hoje, uma vez que, surgindo naturalmente a curiosidade generalizada
das pessoas não-veganas para saber do que se trata o tal selo e o
que há por trás dele, a resposta terá que ser dada com clareza e
isso inevitavelmente implicará a exposição em público de todas as
atrocidades de procedimentos como o Draize, o DL50 e a indução de
irritação cutânea. Isso jogará, cedo ou tarde, grande parte dos
consumidores contra a forma violenta de averiguar a não-nocividade
de produtos industrializados, da mesma forma que, em Pernambuco, o
caso Vostok levantou a indignação popular contra os circos com
animais. b) Com a tendência da maioria das pessoas não-veganas de
não gostar de crueldades contra animais, o selo atrairá a simpatia
delas por estampar produtos vindos de procedimentos de produção
amigáveis. c) A consciência de muitos, que saberão que itens sem a
estampa têm uma origem onerosa para o bem-estar animal, irá pesar
muito caso comprem estes, uma vez que finalmente poderá haver a
analogia mental popular – ainda que incipiente – dos testes cruéis
com as agressões gratuitas puníveis pela legislação ambiental atual.
Um cidadão não-vegano de bem terá consciência de que estará indireta
e indesejadamente machucando bichos caso compre produtos de empresas
testadoras.
2. Os veganos também sairiam beneficiados, pois o selo acabaria com
pelo menos metade do risco do vegano de adquirir um produto que vá
contra suas convicções éticas – a outra metade está na probabilidade
de descobrir que aquele frasco que comprou possui parcialmente
ingredientes de origem animal e seria combatida por uma certificação
industrial de ausência desse conteúdo impróprio. Para um vegano,
adquirir um item antiético, violar sua ética de consumo ainda que
sem querer, é como um religioso blasfemar contra seu deus, ou um
guitarrista quebrar uma guitarra insubstituível, ou um vegetariano
comum comer carne, ou um rei esculhambar seu povo em entrevista
pública, ou um amigo fiel trair em gravidade mediana seu amigo; e
esses fatos serem sucedidos por um corrosivo remorso.
3. Há outros benefícios ainda, como a divulgação midiática do
próprio veganismo e a corrida das indústrias atrás desse “pedaço de
excelência ética” pela implantação de testes alternativos em, por
exemplo, culturas de células e tecidos celulares sinteticamente
produzidos e pessoas voluntárias que receberão anestesias e
remunerações compensatórias.
Animais, veganos, consumidores comuns, empresas, todos sairão
ganhando com o selo normativo de “produto não testado em animais” e
terão a chance de, sem grandes dificuldades, conciliar o consumo de
mercadinho e supermercado com a harmonia animal. O vegano dirá “Ufa!”;
o não-vegano, “Prefiro produtos com aquele selo”; as empresas,
“Somos uma empresa ética que respeita os animais”; e os bichos não
precisarão conhecer todo o terror dos laboratórios e biotérios
industriais. A estampa se caracterizará, a longo prazo, como uma
nave a salvar os habitantes mais bondosos de um planeta condenado a
uma explosão nuclear. Quem ficar para trás, caso dos consumidores
que ignorarem o selo e das empresas que, não correndo atrás desse
mercado consumidor ético crescente, não salvarem sua imagem
institucional da ligação com a crueldade, sucumbirá com a destruição
do astro. As indústrias e seus clientes terão seus hábitos de
produção e consumo moldados para uma conduta muito mais responsável,
alargando a tendência atual de adequação social, ambiental e
zôo-ética da sociedade industrializada.
Robson Fernando
Estudante e articulista amador, é dono do blog Consciência
Efervescente
http://conscienciaefervescente.blogspot.com. Entre em contato por
robfbms@hotmail.com
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