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Robson Fernando
Quando se fala no lucro de rodeios e vaquejadas, torna-se magnânima
a participação das empresas patrocinadoras. Sem elas, não há evento
lucrativo desse porte. Elas se vêem e se portam como “defensoras
heróicas da cultura e da tradição” e dizem zelar pela manutenção de
eventos “culturais” que demonstrem a “força” e a “bravura” do povo
do interior personificado em peões e vaqueiros.
Muito bem, suponho que os defensores dessas coisas me venceram! E
agora admito que rodeio e vaquejada não são violências nem
brutalidades e que são moralmente válidos.
Agora, para aumentar o hall de eventos da mesma categoria desses
dois e o lucro dos patrocinadores, eu gostaria de fazer algumas
sugestões de eventos que certamente exaltarão a força, a coragem, a
bravura, o poder físico, de muitos aspirantes a heróis e ídolos dos
recantos rurais e cidades brasileiros do mesmo jeito que aqueles
dois... esportes fazem. Possuem a mesma inspiração de exaltar a
história e a tradição muitas vezes secular dos povos que os praticam
e agradarão suas parcerias comerciais:
1. Vale-tudo com crianças ou adolescentes: treinados como em
culturas antigas da Ásia, mostrarão sua força em arenas ou ringues,
trocando golpes ainda que comece a escorrer sangue e se quebre algum
osso. Na base da pancadaria, mostrarão o quão valente é a sua
cultura! São crianças, sim. É violência, sim. É exploração brutal de
pequenos jovens, sim. É verdade também que poderiam estar livres e
brincando como qualquer outra criança ou adolescente de sua idade.
Mas e daí? O que vale para as empresas patrocinadoras é que é uma
cultura sendo exaltada para um público apreciador, e este vai
começar a comprar seus produtos ou serviços. Já imagino a
resposta-padrão para protestos vindos de raivosos defensores de
direitos humanos contra os patrocinadores desses vale-tudos: “o
propósito da empresa é propiciar alegria e entretenimento ao
público”, e (suponhamos) “há uma lei que disciplina o tratamento
reservado aos pequenos lutadores e os livra de maus-tratos em suas
arenas de treinamento e suaviza os instrumentos de tortura usados
pelos seus responsáveis antes de cada luta”. Estatuto da Criança e
do Adolescente? Que vá às favas! Há incisos na Constituição
proibindo a crueldade contra menores? E daí? O que importa é que uma
cultura guerreira e a alegria e entretenimento das pessoas estão
sendo valorizados.
2. Criptéia ou Críptia: assim como na antiga Esparta, na Grécia,
adolescentes recrutas do exército são armados com espadas e saem
pela cidade atrás de escravos ou mendigos para executá-los. Quem
captura e mata mais torna-se apto a entrar para o exército principal
da nação. E daí que há mortes nisso? É cultura! É tradição! Estas
valem muito mais para os patrocinadores do que a vida e a dignidade
das pessoas escravizadas ou jogadas na rua. Lembre-se: o que vale é
a alegria e o entretenimento de quem aprecia esse evento. Lei? Já
que existem leis regularizando rodeios, poderiam ser reativadas as
leis do passado concernentes à escravidão.
3. Mongolic Life: um novíssimo reality-show em que várias pessoas,
durante um ano, vivem na pele de quatro tribos da Mongólia do século
12. Isoladas numa estepe, têm que se alimentar de qualquer animal
que apareça perto deles, racionar cada pedaço de carne, vestir-se da
pele de qualquer bicho, sugar o leite de suas éguas e montar cabanas
de feltro de lã ou pele. Quem trair ou desertar o show será morto.
Quem cuspir ou urinar dentro da tenda também é morto, mas ainda vale
defecar dentro da tenda. No sexto mês, um líder tribal irá guiar
toda a comunidade para uma guerra de agressão contra uma rica
cidade, construída para a ocasião do reality-show. Qualquer desertor
dessa guerra será morto junto com todos os seus companheiros. Todos
os habitantes da cidade, menos artesãos e intelectuais, devem ser
mortos e ter suas cabeças empilhadas. É uma barbárie para lá de
atroz, uma cultura que deveria ser esquecida? Nada disso, o povo
mongol revivido por esses participantes é um povo bravo, lutador e
guerreiro, que resistiu a todas as grosserias de um clima hostil.
Assim como o rodeio e a vaquejada, não importa que haja tanto
sofrimento e barbárie por trás, é uma cultura, uma tradição que o
empresariado deveria valorizar e patrocinar. E lembre-se que haveria
uma barreira antropológica que impedisse a repressão de outra
cultura (só o deus mongólico Tengri saberia como essa barreira
desativaria a Constituição ou o Código Penal para um reality-show
violento sobre uma cultura alheia, mas fica para fim de efeito a
suposição).
4. Campeonato de Coragem: relembrando a bravura do povo asteca,
peões e vaqueiros largariam seus cavalos por um tempo e começariam a
procurar cavalos e bois fugitivos no Cerrado ou na Caatinga. Munidos
com paus ou porretes, se lançariam na mata e aplicariam pauladas nos
bichos para atordoá-los, não para matá-los, do mesmo jeito que os
soldados astecas caçavam e capturavam escravos. Teriam que trazer os
bichos vivos no ponto de concentração combinado, mesmo que
atordoados, doloridos e arrastados. O maior capturador de animais
espancados ganharia um troféu e uma boa soma em dinheiro. E daí que
usariam instrumentos violentos? É a cultura! É um motivo de diversão
pra quem assiste pela televisão. Lembre-se que não importa o que há
atrás dessa e das outras gincanas, o que importa o proporcionamento
de “alegria e entretenimento” ao público.
Pronto, dei minhas dicas para as empresas que adoram patrocinar
eventos da laia de rodeios e vaquejadas. E daí que haja tanta
maldade? Tanto sangue? Tanto tolhimento de dignidade e liberdade?
Tanta exploração escandalosa? Tanta ausência de compaixão, respeito
e dignidade para com o próximo diferente? Tanta gente protestando
contra? E daí que sejam eventos imorais e brutais? O que importa é a
“diversão”, a “cultura”, a... “alegria” de quem assiste.
Ou essas empresas carentes de ética e responsabilidade se ajeitam e
param de patrocinar barbáries como rodeios e vaquejadas ou verão o
feitiço se virar contra o feiticeiro tão logo que houver população
esclarecida suficiente para o surgimento de uma onda de boicotes
éticos. Seu envolvimento nessas atrocidades irá lhe tirar clientes,
em vez de atraí-los..
Robson Fernando
Estudante e articulista amador, é dono do blog Consciência
Efervescente
http://conscienciaefervescente.blogspot.com. Entre em contato
por robfbms@hotmail.com
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