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Robson Fernando
Um covarde, especista e antiético processo está começando a se
desenvolver: a clonagem comercial de animais. Para o terror de nós
defensores dos direitos dos bichos, uma empresa da Coréia do Sul,
país famoso por preparar carne de cachorro, agora está
comercializando cães clonados para milionários. Mais uma vez os
animais são valorados e vendidos. Dessa vez são tratados como se
fossem estátuas de ouro que alguém derreteu e os ricaços da ocasião
querem reaver ainda que como uma réplica idêntica.
Antes de tudo, lembremos os debates nos últimos anos da década de
90, em que a comunidade científica internacional se perguntava se
era ético clonar humanos. Foi decidido que não era em nenhuma
hipótese exceto a clonagem de embriões para alguns fins científicos.
Quanto aos animais, ficou decidido que a clonagem para fins de
exploração está livre. Daí vemos os bichos que nascem apenas para
ser explorados, um fim que ninguém de sã consciência hoje desejaria
para um ser humano. Adicionando-se a isso, agora temos essa novidade
de vidas criadas para serem vendidas.
O pretexto usado foi que o tutor do cão falecido, o que foi
pretendido a ser clonado, quer matar as saudades dele e se sentir
como se ele tivesse sido ressuscitado. Entretanto, em uma análise
anti-especista filosófica e ética, tenho que jogar um mórbido balde
de água fria nessa pretensão de “ressurreição” do bicho, numa série
de argumentos.
Primeiro, você aceitaria clonar um filho que morreu ainda menino?
Você, manifestando uma incontrolável saudade e a dor de tê-lo
perdido, diz que queria matar as saudades nem que fosse clonando-o.
Apesar disso, quem garante que o filho clonado terá a mesma
personalidade, as mesmas virtudes, o mesmo carinho por você? Quem
garante que ele viverá tudo igualzinho e você também dê igualzinho
toda a sequência de atos (por exemplo, brincando com ele aos 5 anos,
2 meses e 13 dias de idade igual ao finado; castigando-o por ter te
xingado gratuitamente aos 6a,4m,28d; acariciando-o depois de um
tombo levado aos 7a,11m,15d; etc.)? É essa seqüência de coisas
pequenas da vida que faz uma pessoa ser o que é e, por mais simples
que pareça, não seria nada conveniente você tentar repetir as
atitudes que teve, ainda mais porque você mesmo(a) está em constante
mudança e jamais voltará ao status filosófico/espiritual de vida que
tinha em certa época. Resumindo, o filho morto não voltará e o seu
clone, mesmo que tenha a aparência idêntica, será um filho
diferente, irmão do que infelizmente morreu. Cada pessoa é uma
pessoa. Mesmo que tenha a combinação gênica igual ao seu “original”,
viverá uma seqüência de fatos diferente que irá lhe dar uma
personalidade distinta. E todos esses fatores também se aplicam aos
animais não-humanos de estimação, visto que eles possuem muitos
desses atributos sentimentais e psicológicos.
Segundo, abordo mais uma vez a questão da capitalização da vida, da
valoração de um ser com sentimentos, virtudes, personalidade e
desejos. É de se relevar que os animais não-humanos, principalmente
os mamíferos, possuem muitas propriedades psicológicas em comum com
os humanos, como as já citadas. Consideremos também que o cão
gostava muito de você, era carinhoso, leal e um companheiro de todas
as horas. Você aceitaria pagar para ter esse afeto de volta?
(desconsidere resgates de seqüestros, porque isso não está em
questão neste artigo) Se seu amigo morresse, você compraria outro
amigo (supondo que, assim como um cão, ele não se importasse com o
fato de que se tornou seu amigo graças ao dinheiro)? É certo você
comprar uma vida, uma personalidade, uma amizade? Transcrevo o que
um antigo professor meu falou: um absurdo do capitalismo de hoje é
que as pessoas estão até comprando afeto, comprando sentimentos. É
ético que continue esse regime de mercantilização afetiva, de
redução da vida, do amor, da amizade, da companhia, ao atributo de
produtos, mercadorias, objetos de consumo?
E por último: imagine se ainda estivéssemos numa época de
legalização da escravatura e da livre exploração humana. Se fosse
VOCÊ a pessoa nascida como clone de uma criança falecida e vendida
por 150 mil dólares ao milionário que foi pai dela? Como você se
sentiria se algum dia descobrisse que nasceu para ser vendido(a),
que só é filho(a) desse milionário porque ele te comprou de um
laboratório? Reflita e verá o absurdo que é essa clonagem comercial.
Tá certo, eu sei que a questão é com clonagem de cães, que jamais
terão raciocínio para pensar que foram vendidos e se incomodar com
isso. Mas puxo para cá a questão do especismo: o que o ser humano
tem de superior em relação aos outros animais para que eles sejam
valorados e comercializados enquanto nós não? Entenda que, se somos
superiores por sermos racionais e capazes de habilidades
intelectuais e laborais complexas, os outros animais são igualmente
superiores por não contarem com sentimentos/atributos “racionais” de
ódio, sadismo, maldade, ignorância, intolerância, etc. contra outrem
e também por serem desprovidos da capacidade de pensar em causar
destruição em massa nos ambientes habitados e em sua própria
espécie.
Creio que isso já é o necessário para que você reflita o quão
absurdo é essa nova estupidez de clonar bichos para servirem de
produtos dotados de valor financeiro. É uma pena muito grande que me
dá de ver que a Coréia do Sul, tão avançada educacional e
cientificamente, esteja em contrapartida utilizando tamanho
conhecimento para infligir mais estupidez ainda e arrogar ainda mais
a tal “superioridade” humana, em vez de trazer adventos filosóficos
e éticos que rompam as culturas perniciosas (como a exploração e
matança de animais para consumo e o assassinato dos próprios bichos
de estimação para serem servidos como carne), permitam o ser humano
a construir sua evolução moral e semeiem mais respeito imparcial por
parte deste aos outros animais. Se pouco podemos fazer
individualmente para influenciarmos os coreanos a pararem de aceitar
esses absurdos éticos - exceto quando se tem amigos coreanos ou já
se mora por lá -, podemos ao menos impedir, com o máximo de nossos
valores de respeito à vida animal, que empresas como essa RNL Bio (a
empresa coreana responsável por esse ato de destruição moral) tentem
estabelecer seus tentáculos maléficos aqui.
Depois de tudo, é um momento para se avisar novamente: Não compre
animais, não aceite a cultura de tratamento da vida não-humana como
mercadoria. Adote-os!
Fonte da notícia:
http://news.bbc.co.uk/2/hi/science/nature/7246380.stm
Robson Fernando
Estudante e articulista amador, é dono do blog Consciência
Efervescente
http://conscienciaefervescente.blogspot.com. Entre em contato por
robfbms@hotmail.com
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