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Robson Fernando
Imagine o Mercado de Delos, numa cena corriqueira do século 3 A.C..
Lá, homens, mulheres e até crianças eram “emplacados” com tábuas
penduradas no pescoço com origem, qualidades e defeitos descritos e
o preço em dracmas. Comerciantes abastados chegavam à ilha da
cidade, compravam essas pessoas para lhes servirem de escravos e
arrogavam então a si a posse dos humanos comprados.
Imagine você, vindo de uma viagem no tempo, perguntando para um
comerciante daqueles quem eram aquelas três crianças nuas no barco
dele e se tinham algum parentesco com ele. Então ele diz: “Ah, são
uns escravos que comprei agora há pouco. E não sou pai deles, sou
dono”. E explica que os garotos comprados eram de sua preferência:
morenos, cabelos longos e de olhos verdes, e satisfaziam aos seus
desejos de ter crianças bonitas para sua companhia afetiva.
Uma sensação de indignação e compaixão invade você ao ver aquele
senhor tratando aquelas crianças como mercadorias, como coisas, como
objetos de posse e categorizáveis. Não tolera que ele esteja daquela
forma comprando vidas humanas dotadas de afeto e sentimentos num
mercado. Num ato de reação humana a atos de desumanidade, você
semeia uma conversa argumentativa com o “dono” das crianças na
intenção de mostrar que ele está sendo imoral e desumano e fazê-lo
libertar aquelas crianças ou adotá-las como filhos de verdade. Seus
argumentos falam de as crianças serem humanas iguais a ele, terem
sentimentos, pensamentos, desejos, virtudes e direitos naturais à
dignidade. O homem então, depois de dez minutos de conversa, vai
embora irritado, levando as crianças, sem assimilar a moral de
direitos humanos que você tentou incutir nele. Para ele, os meninos
eram seres inferiores e sem direito à dignidade que apenas os
humanos de sua “raça” tinham e cujos sentimentos e demonstrações de
inteligência serviriam para sua função de escravos de companhia.
Agora, imagine você, dois anos depois de voltar daquela viagem
temporal, na frente de um pet shop, querendo comprar filhotes de um
yorkshire, manifestando preferência por cãezinhos de pêlo comprido,
liso e de cor acaju. Paga então 600 reais por dois cachorros. Quando
você vai saindo com os dois filhotes recém-desmamados, chega um
defensor animal, com a camisa manifestando o ideal da libertação
animal. Ele logo começa uma pequena entrevista com você sobre os
animais recém-comprados. “Você é o quê desses cães? E como os
obteve?”, pergunta o ativista. Você, imaginando o quão idiotas
aquelas perguntas pareciam ser, diz cordialmente “Sou dono deles,
ué. Comprei-os aqui no pet shop”. E afirma que você os comprou para
que lhe fossem companheiros. Uma sensação de indignação e compaixão
invade o rapaz ao ver você tratando esses animais como mercadorias,
como coisas, como objetos de posse e categorizáveis (você os comprou
com seletividade de raça, cor e pelagem). Ele então lhe bombardeia
de argumentos que corroboram o caráter antiético do comércio e da
arrogância de posse de animais: um deles é que os animais
não-humanos têm sentimentos, pensamentos, desejos, virtudes e
direitos naturais à dignidade, ainda que os pensamentos sejam
construídos de forma diferente do pensar humano.
Você, caso seja empático, começa a ficar pensativo: algo parecido já
acontecera antes. Depois de uma boa reflexão, repara que as únicas
diferenças entre as criaturas defendidas por você no século 3 A.C. e
as defendidas pelo defensor animal no século 21 D.C. são a espécie e
a presença ou ausência das capacidades de fala articulada,
raciocínio, intelecto e trabalho manual complexo.
Partindo dessa lição que você teve com a relação entre as falas do
ativista da causa animal e o déjà-vu de Delos, convido a pensar: é
certo categorizar um animal de espécie diferente como portando uma
vida inferior à humana só por causa da falta de habilidades humanas,
a despeito de todas as semelhanças existentes?
Se você começar a refletir seriamente e finalmente pensar “É, por
que os animais, que são mais parecidos conosco do que pensamos
tradicionalmente, ainda assim são tratados como inferiores?”, vai,
por tabela, perceber também que é eticamente errado arrogar a si os
direitos de ter posse de animais e valorar suas vidas. Do mesmo
jeito que é considerado absurdo valorar a vida humana ou ter posse
da vida e pessoa alheia.
Para ser mais evidente ainda em minha colocação sobre o especismo e
a antiética da posse e comércio de animais não-humanos, vamos adotar
dois exemplos que você considera nobres.
Primeiro, pense num Homo erectus. Ele tinha sentimentos, desejos,
virtudes, pensamentos, como você que é Homo sapiens sapiens. Mas não
tinha o intelecto nem o raciocínio apurado que você tem, nem falava
direito e suas melhores ferramentas eram objetos de pedra
rudimentarmente trabalhados. Pergunto: ele era inferior a você? A
vida dele era inferior à sua? Ele merecia restrição de direitos só
porque não tinha as habilidades humanas desenvolvidas? Deveríamos
comercializá-los em “super pet shops” caso existissem? Pense nisso.
Agora pense num bebê. Você vai pensar “Poxa, um bebê? Claro que ele
tem sentimentos, desejos, virtudes, pensamentos (ainda que em
linguagem rudimentar), etc.”. Mas entro com a suposição de que ele
fosse um bebê que tivesse uma doença degenerativa que lhe causasse
uma atrofia cerebral, impedindo que ele desenvolvesse a maioria de
suas habilidades de ser humano quando crescesse, e fizesse-o morrer
aos 12 anos (mesma idade em que muitos cães e gatos morrem). Reflita
então: ele merece ser vendido? Você compraria esse bebê de uma
família que não tivesse condições de custear sua sobrevivência? Você
se acharia dono desse bebê? Atenção, lembre-se de que ele não
poderia nunca desenvolver intelecto, raciocínio, habilidade laboral,
nada disso. Mas não deixa de ter sentimentos, desejos, necessidades
e virtudes. Ele inclusive demonstra muito carinho para com você, da
mesma forma que os filhotes de yorkshire comprados na história dos
primeiros parágrafos lhe demonstram.
Faço a pergunta depois de todos esses casos: qual a diferença entre
os seres humanos normais e os descritos no parágrafo acima? A
presença de raciocínio, intelecto, habilidades manuais, etc.. E
agora qual é a diferença entre o bebê mais o Homo erectus e os cães,
gatos, bois, peixes-betas, iguanas, etc.? A única resposta adequada,
apesar de sua possível visão especista indignada com minha
comparação, é: a espécie. Daí pergunto: por que você compra cães e
gatos mas repudia uma hipotética comercialização de espécimes de
Homo erectus ou bebês com deficiência de raciocínio?
Agora você está começando a enxergar o quão antiética é a venda e a
posse de animais. Não é ético que comercializemos ou nos apossemos
de animais, que têm tanto em comum conosco e cujas ausências de
habilidades humanas poderiam ser notadas em outros hominídeos ou em
humanos com capacidades cerebrais comprometidas.
Como a posse de animais é algo moralmente errado, não devemos mais
nos considerar “donos” dos animais, uma vez que a palavra “dono”
conota posse ou propriedade e odiaríamos que alguém dissesse ser
dono de seus filhos. O certo é nos entitularmos “tutores”, já que
estamos educando e cuidando de nossos animais domésticos e os termos
“educação” e “cuidados” servem perfeitamente também para nossas
crianças ou, por outro exemplo, intercambistas que estejam sob
nossos cuidados.
E como o comércio de animais também é antiético, fica meu clamor:
NÃO COMPRE OU VENDA ANIMAIS, ADOTE-OS OU DOE-OS.
P.S: Se você se irritou com este artigo, pergunto: qual é o
fundamento dessa irritação, além de mero especismo? O que foi dito
aqui que está indiscutivelmente errado? E por que para você os
animais não-humanos continuam não merecendo os direitos básicos que
o ser humano tem (liberdade e dignidade, para dar os exemplos mais
óbvios)? Acalme-se e reflita com o melhor de sua racionalidade.
Robson Fernando
Estudante e articulista amador, é dono do blog Consciência
Efervescente
http://conscienciaefervescente.blogspot.com. Entre em contato por
robfbms@hotmail.com
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